Cultura em Expansão
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Teresa Cunha é livreira há 22 anos no Salta Folhinhas, nome inspirado na raposa do clássico infantil de 1924. Antes de se mudar para a Rua de Costa Cabral, há cerca de 4 anos, mantinha o seu negócio na zona da Boavista. Desde sempre, procurou adaptar-se às exigências do setor livreiro –– recentemente criou um site com uma loja online que é, sobretudo, um canal aberto para que possa continuar a recomendar livros aos seus clientes, incluindo o rapaz de 11 anos que pede “livros com mais texto”.
Teresa é uma das cocriadoras do projeto Cartograma – Memória e Escuta, juntamente com Mariana Santos e Patrícia Costa, num projeto que se propõe registar a memória da zona de Costa Cabral. Acompanhámos uma primeira sessão de contacto da equipa com os vários comerciantes e moradores da rua mais extensa do Porto, escutando também o que nos revelam do projeto.

© Renato Cruz Santos
Cultura em Expansão: Porquê Costa Cabral?
Mariana Santos: Quando decidi optar por Costa Cabral, foi um pouco na sequência da experiência que tive com projetos semelhantes em Gaia e Esposende. E depois, quando pensei em fazer aqui no Porto, tinha na rua a Teresa [Cunha], tinha muitas instituições com as quais também já fui desenvolvendo trabalho –– como a OSMOPE, a Perpétuo Socorro, de onde também já conhecia o auditório. A Teresa, que é uma pessoa que já conheço há muitos anos –– já desde que ela estava na Boavista –– estava aqui e tinha uma relação especial com os comerciantes.
Foi também a pensar no que eu conhecia do Cultura em Expansão, em que, de facto, sentia que esta zona alta da cidade era uma que ainda não estava muito trabalhada nesta questão com a comunidade. Também a partir do grupo dos moradores –– onde conheci a Isabel Trindade, que também faz parte da candidatura –– fui percebendo que é uma comunidade muito coesa. Ando a falar disso desde que vim para cá. As famílias que moram aqui estão muito envolvidas na revitalização da rua. Essas famílias que, sendo ou não daqui, querem participar na animação da rua; querem, de facto, voltar a reconectar-se com a rua, que, no fundo, separa muito a comunidade. Agora há projetos da Câmara no sentido de fechar a rua, de a fazer pertencer às pessoas. Também moro aqui perto, em Campanhã e, portanto, acabo por ter uma ligação. É relativamente perto e como é uma zona que eu vou testando muito, tinha sempre esta curiosidade de perceber como é que podíamos trabalhar esta questão da comunidade, aproximando as famílias, as crianças, os mais velhos e o comércio tradicional que, de facto, tem aqui uma história muito específica. Há lojas que já existem há muitos anos.
Patrícia Costa: E que ainda estão vivas.
MS: E que ainda estão vivas. Algumas já não.
PC: Outras já morreram.

© Renato Cruz Santos
Teresa Cunha: É uma zona muito rica da cidade. É muito heterogénea e há pessoas muito diferentes. Por exemplo, há um grande grupo de imigrantes que vive aqui. É uma zona humanamente muito rica.
CE: Estás cá há quantos anos?
TC: Há quatro anos.
CE: Vives aqui perto?
TC: Não, eu moro na Boavista, no sítio onde tinha a outra livraria. Mas no Porto, tudo é perto. Posso ir a pé de casa até aqui e eu — mesmo assim, manquita, já velhota, demoro 50 minutos, nem uma hora. É uma zona muito bonita mesmo, porque as pessoas comunicam muito, falam-se muito. Há muita gente nova também a viver, pessoas que já vieram de fora, que voltaram para aqui. É uma zona boa. E eu cheguei à conclusão de que muitos dos meus clientes lá em baixo, [na Boavista], iam daqui. Culturalmente, esta zona é muito mais interessante, em termos de procura de cultura. Quando vim para o Porto, há 42 anos, Costa Cabral era a Rua das Sapatarias e agora não encontro uma. Mas também não podemos ficar focados naquilo que foi –– as coisas têm que mudar, têm que sempre mudar –– mas que a rua seja viva, que não morra.

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CE: Que pérolas da rua têm mesmo curiosidade em ir já conhecer?
PC: Isto tem a danceteria Júlio Deniz. É uma resistente.
MS: Nós estamos em asas para ir lá. Aliás, muita gente com quem eu falei disse-me "vocês têm que fazer lá qualquer coisa, porque queremos entrar lá dentro”. Porque há sempre esta coisa de ouvir os barulhos, verem as pessoas ao domingo à tarde...
TC: É daquelas coisas: veem-se as pessoas a entrar, mas têm receio de ir. Por acaso, tenho um filho que já lá foi. É o máximo. Gostou imenso. Diz que aquilo é tão kitsch, que é ótimo.
MS: Nós queremos ir lá. Devíamos abrir ali a programação.

© Renato Cruz Santos
CE: Falaram na resistência da Júlio Deniz. Há outras dores que unem os comerciantes da rua?
TC: As dores em comum é vermos as rendas a subir. Por exemplo, eu não posso dizer nada porque o meu senhorio tem sido fantástico, mas as lojas têm fechado porque as rendas sobem. E aquele sítio onde nós fomos comer no outro dia, a Mary, também está sem saber o que vai acontecer, porque a casa onde ela está foi vendida. Quem vai para lá, o que é que vai fazer? As pessoas têm casas, e acredito que têm que as rentabilizar. Só que pedem rendas para um comércio que... não sei se elas têm ideia de quanto é que tem de se vender para fazer aquele valor. Se soubessem, viam que era irreal. Para faturar, é preciso ter clientes. É difícil.
MS: Mas apesar de tudo, os comerciantes aqui ainda são unidos.
TC: Toda a gente se começou a unir. No ano passado, a Câmara deu-nos uns dísticos no Natal, mas só até à Rua Álvaro Castelões, portanto ficámos fora porque já é outra junta de freguesia. Esta é uma das fronteiras da junta. E deste lado, pensámos “nós também somos Costa Cabral”. Então duas comerciantes uniram-se e começaram a falar. No Natal, todos começaram a pôr um laço vermelho na porta. Podem fazer o laço que quiserem. Foi uma coisa muito caseira, feita pelas pessoas daqui. Depois, na Páscoa, também pediram para pormos uma decoração na porta. É uma coisa espontânea que não tem custos, e acaba por vir do trabalho de duas comerciantes. E agora o grupo de WhatsApp, “Comerciantes de Costa Cabral”, já vem desde o Marquês e já vai até lá. Está a crescer. As pessoas têm-se unido. Está sempre a juntar-se gente.

© Renato Cruz Santos

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CE: Porque é que decidiste juntar-te ao Cartograma?
TC: Eu estou aqui como a bengala que as leva pela rua.
MS: É a melhor bengala.
TC: É um projeto para a rua e que vai dinamizar a rua. É um projeto de união entre as pessoas. E isso é fantástico, pôr as pessoas a pensar nisso, a ler e contar histórias. Há aqui muitas pessoas a pensar em coisas boas. E a fazer trabalhos muito bons, principalmente com crianças. Trabalhos que são completamente diferentes.
CE: Quem é que querem envolver no projeto?
MS: Para além de crianças, os mais velhos, porque é uma zona também muito envelhecida. O próprio Socorro também tem um Centro de Dia.
TC: E se alguém for ao Marquês ao meio da tarde, está lá toda a gente a jogar sueca.
MS: Ou seja, juntar estas duas fações. Para além das crianças, as pessoas mais velhas podem abrir portas. A ideia é abrirmos a porta para que a comunidade possa dar continuidade a estes projetos. Claro que o problema é que estes projetos têm sempre um espaço curto no tempo. Mas acho que a ideia é abrir a possibilidade das pessoas perceberem que podem trabalhar em conjunto. Tanto que, aqui na rua, há pessoas que têm um trabalho muito interessante. Eu acho que também nesse aspeto Costa Cabral tem esta vantagem –– há tanta vontade de querer fazer coisas na comunidade e unir a comunidade, que eu acho que um projeto destes aqui pode deixar essas sementinhas, dar abertura para que as pessoas possam mudar.

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CE: E hoje, qual é o plano?
MS: Hoje, com a ajuda da Teresa, vamos dar uma volta.
PC: Pois vamos. Vamos começar.
MS: Será para explorar novos recrutamento para as parcerias, e as que temos inicialmente estabelecidas são com a OSMOPE, com o Perpétuo Socorro e o Centro de Dia, e com a próprio Grupo de Moradores da Alameda. Isso faz com que o projeto se foque mais nesta zona até aos Combatentes. Mas, entretanto, já conhecemos pessoas da Academia de Música.
TC: Até ao Conde Ferreira, também ali a Casa Museu Fernando de Castro.
MS: Mesmo o lar que há em frente ao Conde Ferreira também é um ponto muito importante, porque é de onde vem também o nome da antiga rua, das Regateiras. Era lá que elas regateavam, porque tinham de pagar o imposto para entrar e regateavam o preço com os fiscais. Inicialmente não conhecia esse ponto, mas agora, à medida que vou pesquisando, acho que também é um sítio que será importante trabalhar. Tínhamos pensado no Marquês, claro, porque tem toda esta sonoridade das pessoas durante o dia, dos sons do sino, dos carros e também de alguns espaços de comércio tradicional. E o Largo, de facto, historicamente, é uma fronteira. Na altura era a entrada de quem vinha, das senhoras que vinham do campo vender fruta. Pagavam lá imposto. Será um sítio interessante de trabalhar.

© Renato Cruz Santos
Após a nossa conversa, o entusiasmo de Mariana, Patrícia e Teresa em começar a pôr as mãos à obra é palpável. A primeira paragem do grupo foi na loja de eventos To Dream, onde estiveram à conversa com a proprietária uns largos minutos. Os problemas que relata não são diferentes dos que Teresa Cunha identificou.
Teresa diz-nos que Leonor é uma das dinamizadoras do grupo de WhatsApp que une os comerciantes da rua, quase como se fosse uma associação de comerciantes improvisada.
Depois de passarem por uma Júlio Deniz fechada –– com a promessa de que deverão voltar na semana seguinte para conhecer finalmente o espaço, já que é “dia de matiné” –– são várias as lojas abandonadas ao longo da rua, incluindo uma camisaria cujo interior mantém ainda alguns resquícios de atividade. Teresa mantém a promessa de encontrar os donos da antiga loja, e Patrícia fica logo entusiasmada com a ideia de fazer lá uma apresentação do projeto.
As últimas paragens antes de nos despedirmos das cocriadoras do Cartograma mostram que Costa Cabral é uma rua que mantém uma relação paradoxal com a passagem do tempo. Ora vemos salões de estética, restaurantes e negócios novos –– certamente fruto de necessidades dos novos moradores da rua –– como nos deparamos com mercearias como A Cafezeira, que opera ali há quase 100 anos.
“Vivo aqui há poucochinho –– 17 anos”, brinca Rosa, trabalhadora da casa mítica de cafés. Ressalva que o negócio, fundado em 1929, sobrevive graças ao programa Porto de Tradição, que visa promover e salvaguardar a sustentabilidade de lojas e entidades de interesse histórico, cultural e social local.

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Cartograma – Memória e Escuta foi selecionado na Open Call de 2026 na modalidade Cocriação comunitária. Esta modalidade compreende projetos que não são feitos para as pessoas, mas com elas. A criação artística resulta da visão conjunta entre os participantes e o artista.
As datas de apresentação das novas criações geradas no âmbito da Open Call estarão disponíveis em breve.