Cultura em Expansão
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A Rua do Freixo é um lance vertiginoso do topo da colina da Estação de Campanhã até uma das portas de saída da cidade, junto ao rio. A longa fila de veículos que negoceiam em ambos os sentidos a elevada inclinação desta via reveste-a de sons de motores e fuligem de escapes. A meio da sua extensão, há um pequeno oásis que se estende para ambos os lados da via. Abrigadas sob o colosso da via férrea e montadas sobre uma escarpa acentuada, há um conjunto de residências que se foram propagando por esta tira ao longo das décadas. Algures entre perfis de ilha, construções remediadas, e as frequentes moradias ampliadas ao ritmo do dinheiro amealhado, encontramos um conjunto de residentes que se habituou — e, talvez, acarinhou — a serenidade de uma malha urbana aparentemente ignorada pelo resto da cidade.
Tudo muda em 2023 quando, com o anúncio da rota da Linha de Alta Velocidade Porto–Lisboa (TGV), o projeto construtivo sentencia a demolição do casario a Este da via férrea atual, de forma a permitir a instalação da nova via e os seus equipamentos funcionais. A onda de alarme e incerteza espalha-se porta-a-porta, boca-a-boca, entre os vizinhos. Hoje, a contestação deu lugar a negociação — e alguma resignação — enquanto os moradores procuram junto do município uma solução para o seu desalojamento. Esta negociação conduzida perante a resignação de um projeto imparável são as duas linhas do projeto Entre o Luto e a Luta, da fotógrafa e investigadora Ana Miriam. Fomos conversar com ela e com António Pinto (mais conhecido como Chalana), o sociólogo e assistente social com o mais longo e profundo trabalho desenvolvido com os habitantes desta zona, e que assessora o projeto na sua vertente de mediação.
Cultura em Expansão: Quando começa a tua relação com este lugar?
Ana Miriam: Este é um lugar que eu conheço desde 2012, numa altura em que estava a fazer um projeto de fotografia que era aqui em Campanhã. Depois de um longo interregno, voltei aqui com o meu trabalho de doutoramento, que ia beber um pouco a esse trabalho anterior, mas agora com outra escala. O foco foi na apropriação dos espaços pelos moradores. Este é um espaço que sempre me interessou bastante nessa dimensão, e este projeto reforça isso ainda mais — no sentido em que as pessoas estão aqui um bocadinho esquecidas, elas próprias o dizem. E isso faz com que elas, por exemplo, tenham uma rua em terra batida, e coisas como saneamento e recolha de lixo terem chegado tarde em comparação com o resto da cidade.
CE: Contudo, parte da resistência dos moradores ao realojamento prende-se também com o carinho por este lugar.
AM: Isso é porque o outro lado desse esquecimento é as pessoas também estarem aqui muito sossegadas. Ou seja, elas também fazem algumas coisas que, se calhar, noutros sítios chamariam a atenção e talvez não lhes fosse permitido fazer. Neste momento já não se vê tanto isso, e em parte tem a ver com o que vai acontecer e que são as demolições que já estão anunciadas há três anos. Havia um espaço que eu fotografei que tinha um arranjo de louças, e que entretanto foi vandalizado. Mas a pessoa que o fez disse-me que, agora, não tinha vontade de o reconstruir. Isso é algo que as pessoas têm exprimido.

Os carris que restam da antiga Linha da Alfândega, entretanto desativada, e o atual troço Campanhã–São Bento, no topo à direita © Inês Aleixo
CE: E é algo que acontece à escala das moradias, também?
AM: O sr. Manuel, um dos residentes e alguém que trabalhou na sua casa com as mãos na massa, que me disse a expressão "casa pronta, homem morto", porque uma casa nunca está terminada. Há o exemplo da D. Ida, que até chegou a fazer muros com pedras de saneamento que foram deixadas aqui. Essa pessoa tinha-me dito, recentemente, que o próximo plano era construir um friso à volta da fachada da casa. Mas, como é natural, neste momento já desistiu de continuar a trabalhar na casa, para não ter tanta mágoa quando for demolida.

Fotografia do projeto "A cidade sombra e o que nela brilha" © Ana Miriam
CE: Geralmente, esse é um aspeto que não é valorizado pelo público em geral, quando são anunciadas estas deslocações de moradias.
AM: Pois, não é valorizado. Neste momento, vai ser feita uma avaliação das casas, que é uma coisa que está a tardar muito e que as pessoas precisavam para saber com o que é que contam para poder ir para o outro lado. Mas claro que é uma avaliação que não tem em conta este investimento, não só monetário, mas também emocional e de trabalho.

© Inês Aleixo
CE: O projeto tem também este papel de valorizar a relação destas pessoas com este lugar, então?
AM: Este é um espaço que eu sempre valorizei, e que as pessoas também valorizam muito. E, depois da notícia das demolições, pareceu-me importante fazer um trabalho de documentação. O que eu habitualmente faço é fotografia, mas também gosto de conversar com as pessoas até para que aquilo que elas me contam informe a fotografia que eu faço. E pronto, comecei a alimentar essa ideia.

© Inês Aleixo
CE: E como é que surge aqui o envolvimento do Chalana (António Pinto)?
António Pinto: Eu tive o privilégio de ser procurado pela Miriam há uns tempos por causa dos problemas da habitação. Na altura levei-a a alguns locais muito duros, mas fez disso fotos incríveis. Quando ela me conta deste projeto, fiquei logo apaixonado pelo título "Entre o Luto e a Luta".
CE: Para além da documentação fotográfica, há um importante vertente de mediação.
AP: Sim, sem dúvida. Quando chegámos cá, percebemos que o que estava a acontecer era uma pequena panela de pressão que poderia rebentar a qualquer momento. Porque as pessoas não tinham informação, ou então a informação que tinham era contraditória. Queriam o Presidente da Junta no terreno e ele não aparecia, queriam a Câmara e não aparecia, queriam o consórcio de construção e não apareciam. Estavam no desespero completo.
AP: Bem, tivemos de ter aqui um cuidado muito grande, e explicar muito bem não temos informação sobre o projeto. Eu queria muito que pudéssemos ajudar a esse nível, mas isso não é um objetivo do projeto. De qualquer forma, pudemos conciliar aqui de alguma forma essas duas coisas. E foi aí que percebemos a ferramenta para apoio psicológico: criar uma associação de moradores, e com isso dar ali algum apoio jurídico e sensibilizar a comunicação social para dar luta e visibilidade a isto. Porque, de facto, estão completamente sozinhos. Estão completamente sozinhos, perdidos, desorganizados — estão desesperados. E este projeto foi a uma âncora, uma alavanca, para se articularem.

Vista do rio a partir da zona afetada © Inês Aleixo
CE: Com o luto pelas casas garantido, ainda há aqui no terreno muita predisposição de luta?
AP: Sim, sem dúvida. E este projeto pode ajudar nessa luta. Porque, por exemplo, uma das coisas em que a Junta de Freguesia pode ajudar é em propor que seja usado um terreno municipal em Noêda para que o consórcio do TGV possa ali construir as novas moradias. Porque sobre as avaliações, já todos andamos aqui há tempo suficiente para saber que não há capitalismo fofinho, há capitalismo que mata as pessoas. E o valor dessas indemnizações vai ser um valor legal, não vai ser o valor de mercado.

© Inês Aleixo
CE: E para além disso há o impacto emocional de que a Miriam falava.
AP: Esse, então, é o mais importante. Temos aqui malta que passou a tomar medicação por causa disto. Porque uma casa é muito importante como "trunfo" para mostrar que se venceu na vida — as pessoas podem não ter licenciatura, ou sentir que fracassaram noutras áreas. Mas gostam de mostrar a casa grande que têm, e onde investiram as poupanças de uma vida para melhorias. Para além disso, é a questão da indefinição: "E agora, para onde vou morar? Onde é que vou acabar a minha vida? Em que casa? Em que condições?". Isto é uma dor. É uma coisa chamada "progresso" que é inevitável. Portanto, o luto está garantido porque o projeto [do TGV] é impossível de parar. E neste momento, a luta está a focar-se. Com este projeto, vamos fazer uma caminhada, e fazer um livro. Mas se a gente puder com essa janelinha meter um bocadinho de sal revolucionário, pensar uma estrutura revolucionária, isso dá outro tempero à coisa.

© Inês Aleixo
Assembleia na hora
A dimensão de mediação do projeto torna-se aparente a meio da entrevista quando, no caminho ao longo da antiga Linha da Alfândega, se junta um vizinho, e depois mais dois, três. Com Ana Miriam e Chalana, discute-se a última novidade: uma reunião que está a ser proposta por um dos residentes para partilhar algumas informações que descobriu. Combinam-se estratégias, fazem-se chamadas, atualizam-se grupos de WhatsApp. E, pelo meio, permite-nos falar com quem é mais diretamente afetado pelas demolições.
Entre quem se junta está Teresa Magalhães, nomeada como representante da prestes a ser formada Associação de Moradores. O papel insta-a a divulgar as mais recentes novidades pela vizinhança: "Temos aqui muitas pessoas de idade, que não têm a capacidade de estar atentas às redes sociais.". O que se segue é, portanto, um trabalho de bater à porta e manter uma partilha de informação num momento que há ainda muito para saber
Teresa reside na zona afetada há 37 anos, mas faz questão de mencionar que há ali "pessoas de 80 ou 90 anos e que moram cá desde que são crianças". Recordando o momento em 2023 em que foi anunciado o destino da demolição, fala em "Muita raiva, mas sobretudo tristeza. Mexeu com o psicológico de toda a gente aqui". Vê com bons olhos a solução proposta de novas construções no terreno de Noêda, "cada um com a sua casinha e a sua portinha para entrar" porque é aquilo a que já estavam habituados.

Teresa Magalhães, residente há 37 anos na zona afetada © Inês Aleixo
Já Manuel Pinto é um residente mais recente: apenas mora na zona afetada há cerca de 5 anos. Contudo, o seu historial com a zona é muito anterior a isso: trabalhava na empreitada que, em 1985, construiu o viaduto que suporta o troço de via férrea que liga Campanhã a São Bento, e que se mantém como uma presença imponente sobre as casas.
Recorda como na altura "os trabalhos estavam a gerar muito pó, e a REFER prometeu aos moradores que, terminado o viaduto, lhes iam fazer um parque para crianças como compensação". Contudo, assim que a obra ficou terminada, foi dada ordem aos trabalhadores para levantarem arraiais sem ter ficado cumprida a promessa. Manuel faz questão de referir que qualquer solução que haja para os moradores teria de passar por todo o bairro permanecer a residir em contiguidade. "Precisamos de estar todos juntos, há aqui muita união, e apoiamo-nos uns aos outros".

Manuel Pinto © Inês Aleixo
Ana Miriam fala na possibilidade dos trabalhos da Linha de Alta Velocidade arrancarem até ao final do ano, pelo que "o projeto tinha de acontecer agora". O primeiro momento será uma caminhada já no dia 19 de setembro, ao longo da linha férrea já existente. Depois disso, terá lugar uma exposição com o trabalho fotográfico, e com algo que Miriam destaca: "vamos promover uma conversa com especialistas que podem ser importantes para nos dar ideias sobre que modelos seguir para o realojamento. Para que a decisão que se tomar possa ser uma decisão informada".
Em jeito de conclusão, Miriam reforça a importância de manter viva a rede que se criou entre os moradores: "são relações de vizinhança já muito antigas, e há pessoas mais velhas também dependem bastante dessa entreajuda". "Não se constroem apenas casa, não é? Há muito que se constrói que é invisível".
Entre o Luto e a Luta foi um dos projetos selecionados na Open Call de 2026 na modalidade Criação participada. Na génese destes projetos, um artista conta com os contributos de uma comunidade. A criação artística final reflete a sua visão após este encontro.
As datas de apresentação dos vários projetos estarão disponíveis a partir de 4 de setembro, após o lançamento da programação.

© Inês Aleixo

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