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“A democracia dá trabalho”, mas o Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim arregaça as mangas
Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

Numa noite de verão, as portas do Sporting Clube de São Vítor estão escancaradas, e a clientela espalha-se pelo estreito passeio. Para quem se atrevesse a entrar e a subir as escadas que levam à sala multiusos da associação desportiva, naquela noite em particular encontraria um ensaio dançante e vociferante de um grupo diverso em género e faixa etária. O Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim foi selecionado este ano em Open Call, na modalidade de apoio Cocriação Comunitária. 


Este projeto não representa a criação de uma nova dupla entre estrutura artística e território, mas antes o adensar de uma relação pré-existente — afinal, foi no seio da própria MEXE — Associação Cultural que nasce um grupo que pretende “interrogar a noção de coletivo e as práticas artísticas e comunitárias instituídas”. Falámos com João Ferreira, diretor artístico do MEXE, e Anabela Reis, há já 3 espetáculos membro integrante do Grupo. 

Cultura em Expansão: Como começou esta relação entre a MEXE e o Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim? 


João Ferreira: O grupo de teatro surge como uma resposta ao processo pandémico que passamos em 2020 e 2021 — por uma necessidade que nós sentimos na cidade de haver um espaço de encontro em que as pessoas pudessem estar fisicamente juntas a pensar e a fazer teatro. Isto é a fundamentação do grupo — apesar de se chamar grupo de teatro comunitário, ele vai muito para lá do teatro, e até vai para lá mais de ser um grupo: é um espaço que está sempre aberto 24 horas por dia, em que as pessoas podem sempre falar umas com as outras, podem conversar, podem procurar ajuda para diferentes situações da sua vida. 

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

© Inês Aleixo

CE: O Grupo começa, portanto, por iniciativa do MEXE? 


JF: Este espaço, chamemos-lhe assim, foi criado pela MEXE no contexto da vinda de um grupo de teatro de vizinhos argentinos chamado Matemurga, em 2022 — que nós programámos precisamente no contexto do Cultura em Expansão, portanto existe também desde o início esta ligação ao programa. Ele foi criado com o apoio do Cultura em Expansão, da Junta de Freguesia do Bonfim e do Sporting Club São Vítor, a associação onde nós estamos agora. 

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

© Inês Aleixo

CE: Desde que o grupo foi criado, eles têm mantido uma contínua criação artística. O espetáculo que vão construir no âmbito da edição deste ano insere-se de que forma nessa continuidade? 


JF: O grupo já fez três produções originais: Como se nada fosse, A democracia é um ensaio, e Set Revolução. E essas criações surgem num trabalho de cocriação — ou seja, apesar haver uma direção artística, tudo o que está em palco foi cocriado pelas pessoas que estão no grupo. O texto, o movimento, a dramaturgia, tudo surge de uma criação lenta, por isso é que temos uma intensa agenda de ensaios. A direção artística, aqui, tem uma função muito mais de curadoria. Eu próprio, enquanto coordenador do projeto, também alimento esse lado de provocar algumas temáticas, algumas ideias — que depois as pessoas devolvem, seja com imagens, com cor, com frases, com textos. Tudo isso se junta num bolo que depois é retalhado, feito e desfeito várias vezes até chegarmos ao espetáculo final. 

"O texto, o movimento, a dramaturgia, tudo surge de uma criação lenta, por isso é que temos uma intensa agenda de ensaios. A direção artística, aqui, tem uma função muito mais de curadoria."

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

© Inês Aleixo

CE: E é fácil perceber quando se chega ao espetáculo final? 


JF: Basicamente — e eu acho que isto é verdade para todo o teatro — o espetáculo nunca está acabado. Ou seja, se tu tiveres mais uma semana para trabalhar, o espetáculo já vai ter coisas novas. Nós nunca chegamos a um ponto em que está acabado: chegamos a um ponto em que temos de apresentar porque chegou a data do espetáculo. Quando surgiu esta oportunidade de agora continuarmos a trabalhar, graças à Open Call do Cultura em Expansão, nós perguntamos ao grupo qual era o pensamento em que queriam trabalhar. E as pessoas quiseram continuar o processo de trabalho que nós acabamos em maio do ano passado, com a apresentação do Set Revolução. 

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

© Inês Aleixo

"Basicamente — e eu acho que isto é verdade para todo o teatro — o espetáculo nunca está acabado. Nós nunca chegamos a um ponto em que está acabado: chegamos a um ponto em que temos de apresentar porque chegou a data do espetáculo. "

CE: E em que é que vai diferir do Set Revolução este novo espetáculo? 


JF: É assim, como é que se revisita este sítio onde estivemos já há mais de um ano, sendo que desde então tem acontecido um pouco de tudo no mundo? Para um grupo como o nosso, a realidade não é má. Estão sempre a acontecer coisas novas, algumas difíceis, portanto temos sempre material para trabalhar. Há mais de um ano, por exemplo, discutimos muito o genocídio na Palestina, discutimos muito a ascensão dos partidos de extrema-direita na Europa. Agora, apesar de nenhuma dessas coisas ter desaparecido, também já surgiram outras. E já conseguimos olhar com outro contexto para aquilo de que falávamos há um ano, já conseguimos pensar de outra forma. E quando digo isto, não quer dizer que o grupo pense todo da mesma forma — este grupo é bastante plural, temos pessoas que veem as coisas de forma bastante diferente umas das outras, e há necessidade deste tempo de ensaios para chegarmos a um consenso. Tal como em Set Revolução, estamos a trabalhar o tema das assembleias comunitárias, mas revisitando-as no contexto atual. 

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

© Inês Aleixo

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

© Inês Aleixo

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CE: Anabela, como começa a tua relação com o Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim? 


Anabela Reis: Não estou no grupo desde o início, mas quase. Em 2023 uma amiga minha desafiou-me a vir experimentar, porque eles precisavam de mais três pessoas no espetáculo. Eu nunca tinha feito teatro na vida, e achei que seria um pequeno teatro para a junta de freguesia, que não seria nada de mais. De repente chego, deparo-me com um texto estranho para mim, uma conjuntura estranha, e com a ideia que a estreia do espetáculo seria daí a três meses! 

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

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CE: A tua expectativa era de um teatro mais clássico, com um texto linear? 


AR: Sim, de um teatro amador mais clássico. Porque eu só despertei para esta forma de teatro depois de entrar no grupo. Só depois de entrar aqui é que eu comecei a ver peças no São João, no Carlos Alberto — a ver outro tipo de teatro. 


CE: Este tipo de processo de que o João falava há pouco pede que os intérpretes contribuam com autoria. Isso foi difícil para ti, no início? 


AR: Foi. É um bocado difícil porque todo este processo sai da minha zona de conforto. Nunca é confortável para mim, mas gosto de me desafiar todos os dias. Acho que sou muito cerebral, e é desafiador para mim encaixar e fazer teatro desta forma, sem filtro. Quando acabou o primeiro projeto, na altura até perguntei ao João se eu podia continuar — porque eu achava que não tinha grande talento, e que eles me iam descartar. E claro que ele me disse para continuar!  

CE: Voltando ao projeto que estão a construir agora — ele começa com uma pergunta: “Pode um grupo de teatro ser uma comunidade?”. Vocês têm à partida uma resposta para esta pergunta? 


JF: Eu acho que sim, isto funciona numa ótica quase científica: para provar a teoria, temos de a testar.  


AR: Nós somos um grupo muito heterogéneo e acho que realmente fizemos aqui uma comunidade, este ano. Nos outros anos também, mas dentro dos temas deste ano realmente acho que o nosso grupo consegue ser uma comunidade.

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CE: E o que houve de específico neste ano que tornou o grupo mais coeso? 


AR: Porque perdemos algumas pessoas. Uma das nossas atrizes faleceu recentemente. E perdemos o elemento mais novo do grupo, que se perdeu um pouco na vida. E acho que nos conseguimos apoiar uns aos outros durante estas perdas. Entretanto, entraram pessoas novas, e acho que essas pessoas se têm sentido bem. Vêm e não se vão embora. 

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

© Inês Aleixo

CE: Este espetáculo, apesar de não partir do zero, pretende fazer uma construção de raiz. É já possível sequer prever a estrutura que ele terá? 


JF: A estrutura que vamos seguir também tem um pouco a ver com uma certa sustentabilidade e pensamento daquilo que é um espetáculo. Passado o ano, não quisemos deitar fora o espetáculo anterior. Ao mesmo tempo também já não fazia sentido ser exatamente igual. Portanto, onde é que a gente poupa tempo aqui? Na investigação do tema — a maior parte das pessoas aqui já tem um pensamento sobre o que é uma assembleia comunitária, o que são formas diferentes de democracia. Porque no processo anterior tivemos pessoas de fora, em três momentos diferentes, que nos vieram falar sobre assembleias. E neste processo também vamos ter outra assembleia sobre habitação aqui no território. Também vamos manter muito da linguagem — a questão do ritmo, porque é um espetáculo que vive muito do DJ, está muito associado à música que é usada. Ou seja, tens estas caixinhas e que agora enches com o novo espetáculo. Que agora vai criar novos elementos como figurinos, cenário, música. Isto é tal como a democracia: dá muito trabalho. A democracia dá muito trabalho. Porque as personagens partem também das pessoas. É uma criação coletiva que, no fundo, agora tem novos criadores. Com pessoas diferentes, vamos ter energias diferentes. 

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CE: É absolutamente imprevisível o estado final que o espetáculo vai ter, mas o que é que vocês diriam que o público pode esperar da vossa apresentação? 


AR: Acho que as pessoas vão ser instadas a pensar, a refletir, e vão ficar um bocado abaladas com o que estão a ver. Vão questionar-se sobre muita coisa, provavelmente, e questionar muita coisa do mundo. Porque algumas pessoas ainda veem coisas que se passam “no outro lado”, e sentem que não é nada com elas. E nós queremos levá-las para dentro do caos, da confusão, da violência, o que eu acho que vai ser importante para o público. 

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

© Inês Aleixo

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CE: O espetáculo vai procurar um lugar de empatia? 


AR: Mais do que empatia, eu acho que o espetáculo vai querer impactar. 


JF: Isto é um espetáculo que provoca desconforto, como a Anabela está a dizer, e acho que “impacto” é mesmo a palavra que se adapta melhor. Acho que é este o gesto que nós queremos causar no público. E, do meu lado, seria bom se nós conseguíssemos que este projeto também servisse para  repensar o conceito de comunidade. Porque sinto que é uma palavra que está a ficar desgastada. Dentro de qualquer grupo, as pessoas são diferentes e a beleza está na diversidade que existe dentro delas. Então este vício que nós temos de achar que numa qualquer comunidade, como por exemplo a dos migrantes, todos são iguais ou passam por uma experiência parecida. Por questão de simplificação de comunicação, reduz-se a identidade a uma qualquer comunidade quando as pessoas na verdade são muito mais do que isso. Nós, no último espetáculo, tínhamos cerca de cinco pessoas migrantes no grupo. Mas nenhuma delas, em algum momento, escolheu representar-se ou falar de si mesmo enquanto pessoa migrante. Têm muitas outras coisas para dizer, como ser mãe, ou ser professora. Queremos que este grupo seja um ensaio para uma comunidade, e sobre como é que nós podemos replicar as dinâmicas que vivemos aqui no nosso prédio, no nosso local de trabalho, na nossa família, ou na nossa rua. E acho que a parte boa do trabalho é exatamente essa. Que estas diferenças realmente se esbatem depressa, não porque toda a gente fica igual, mas porque aparecem outras diferenças muito mais interessantes — diferenças de opinião sobre o mundo, sobre a democracia, sobre o governo, sobre a arte. E que são muito mais identitárias daquilo que tu és.

Este projeto foi selecionado na Open Call de 2026 na modalidade Cocriação comunitária. Esta modalidade compreende projetos que não são feitos para as pessoas, mas com elas. A criação artística resulta da visão conjunta entre os participantes e o artista.


As datas de apresentação dos espetáculos criados no âmbito da Open Call estarão disponíveis em breve.

Entrevista Grupo de Teatro Comunitário do Bonfim

© Inês Aleixo

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