Cultura em Expansão
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Numa solarenga tarde de agosto, um grupo que segue um guia pelas ruas da ribeira está longe de ser uma aparição incomum. A primeira diferença que é notada pelos turistas que se aproximam deste grupo — esperando talvez ouvir um pouco da walking tour — é que o discurso é proferido em português, e não inglês. A segunda diferença, mais subtil, é que o grupo está a ser conduzido não por igrejas e palácios, mas por locais sem monumentalidade aparente.
Este percurso é na verdade promovido pelo projeto Habitar o Centro: Devolver a Cidade com os seus participantes, numa das muitas ações de partilha e capacitação antes de iniciarem o trabalho criativo. A caminhada é orientada por Cândido Venceslau, um filho da Ribeira, e o percurso leva o grupo portas e edifícios aparentemente anónimos, mas que encerram em si as memórias afetivas de quem cresceu por aquelas ruas. Cada esquina suscita uma história com protagonistas como Quim Facadas, Apóstolo, Corcunda, António das Iscas ou Maria do Pedro (não confundir com o Pedro da Maria). No final deste périplo de património humano, falámos com quem quer devolver humanidade às pedras de uma calçada eminentemente fotografável — a diretora artística Gabriela Gomes, a mediadora do Centro Social Paroquial de São Nicolau Andreia Oliveira, e as participantes Helena Freitas e Maria José Ferraria.

Cândido Venceslau conta a história do Duque da Ribeira, um barqueiro que dedicou a vida ao salvamento de quem caía ao Rio Douro © Inês Aleixo

Gabriela Gomes, diretora artística e coordenadora geral do projeto © Inês Aleixo
Cultura em Expansão: O projeto tem como objetivo último uma intervenção em espaço público com recurso a objetos escultóricos. Qual é a linha condutora de um percurso como o de hoje até essa apresentação final?
Gabriela Gomes: Nós temos uma série de atividades pensadas para a capacitação dos participantes em criação artística — que vão de atividades de escolha de materiais até à aprendizagem de técnicas. Mas a par disto temos atividades como a de hoje, em que fazemos visitas a vários locais do centro histórico. Estas histórias, por exemplo, do Sr. Cândido, são histórias vividas na primeira pessoa. Ele contou o que era a visão dele do Barredo, na Ribeira. E isto é mais um elemento que nos vai ajudar a construir o conceito a que queremos chegar com a intervenção artística.
CE: E, no fundo, todo o projeto partilha este carinho de valorizar quem vive aqui, no Centro Histórico.
GG: Sim, há esse lado de um grito de "estamos aqui!". Mas não são apenas os habitantes que estão aqui — também os novos habitantes, os comerciantes que, entretanto, esta transformação muito rápida do centro histórico trouxe. Uma mudança que também provocou o isolamento das pessoas que habitavam cá — portanto, a ideia também é retomar alguns dos laços que havia na comunidade, e criar novos laços com os novos habitantes do centro.

© Inês Aleixo
CE: Não estamos portanto a falar de uma polarização entre quem habita o centro histórico, e quem o trabalha.
GG: Sente-se aqui uma grande pressão turística e imobiliária — mas isso trouxe novas pessoas que também precisam de ser integradas. Em termos de coesão social, precisamos de alguma harmonia entre quem cá está, parece-me.

© Inês Aleixo
CE: Para chegar a quem habita o centro, foi fundamental a rede do Centro Social paroquial de São Nicolau, imagino.
Andreia Oliveira: Sim, há já vários anos que fazemos intervenção comunitária neste território, que de facto está muito diferente. Está com cada vez menos pessoas, mas é nosso objetivo que as pessoas que estão cá consigam viver aqui com dignidade — que sintam que são úteis neste território, que são valorizadas, assim como reconhecidas todas as suas histórias e memórias. E é também neste sentido que surge o trabalho conjunto com a Ponte de Contacto, porque nos dá ferramentas às pessoas para viverem com uma melhor qualidade de vida, e também para valorizar o património imaterial aqui das nossas gentes. E tudo isto combate os problemas do isolamento social e do envelhecimento que temos nos moradores desta zona.
GG: Eu também queria acrescentar que o desenho deste projeto foi um processo partilhado, em contacto com o Centro e com a Andreia. Nunca quisemos chegar ali e impor uma visão — falámos com as pessoas e quisemos perceber o que gostavam de fazer em relação às memórias que tinham do Porto,

Andreia Oliveira mediadora do Centro Social Paroquial de São Nicolau © Inês Aleixo
AO: Para além disso, este projeto tem uma nuance muito interessante que é a de nada estar fechado sobre a apresentação final. Sabemos que será um percurso escultórico, mas ele vai ser trabalhado e definido com os participantes. O que claro, será um desafio adicional para a Gabriela, mas é importante para que as pessoas se revejam no resultado final.
GG: Eu acho que os projetos de arte participativa têm esta componente de serem cocriados. De maneira nenhuma se pode avançar com uma ideia pré-determinada. Há uma proposta artística inicial, mas tudo o resto, todas as decisões, são desenhadas em conjunto. Não poderia ser de outra maneira.

Cândido Venceslau, Andreia Oliveira e Gabriela Gomes © Inês Aleixo

A colaboração anterior entre a Ponte de Contacto e o Centro Social paroquial de São Nicolau foi esta peça escultórica instalada na Rua de São João, construída com sacos de café usados recolhidos junto dos operadores turísticos © Inês Aleixo

Helena Freitas, participante no projeto © Inês Aleixo
CE: Pelo que nos contam, a Helena foi quem teve a ideia de usar como material para as peças escultóricas a rede de sacos de batatas.
Helena Freitas: Alguém tinha falado em usarmos rede de pesca, mas essas não são muito fáceis de encontrar. Antigamente, os sacos de batatas eram em serapilheira, mas hoje são naquela rede de plástico que é muito semelhante às redes de pesca, e encontram-se em todo o lado. E também tem a ver com o sítio onde fazemos as oficinas, que era um antigo armazém de batatas.
CE: E a Helena é moradora aqui no Centro Histórico?
HF: Eu nasci aqui na Ribeira. Mas há cerca de 15 anos, com o aparecimento dos hostels e assim, fui morar para o Bairro de Francos. Mas eu trabalho aqui na Ribeira, a minha vida é aqui. Estou cá todos os dias.

Maria José Ferraria, participante no projeto © Inês Aleixo
CE: A Maria José também reside aqui na Ribeira?
Maria José Ferraria: Eu pertenço ao Bonfim! Mas tenho uma ligação muito próxima com a Ribeira, porque sou de História, e passava muito tempo aqui na Casa do Infante, nos arquivos municipais. Ao longo do tempo que fiz investigação, notei uma diferença dramática entre os anos 80 e 90 e a Ribeira que temos agora. E não é só da forma geral como o turismo transformou a cidade: acho que o turismo aqui na Ribeira tem uma natureza diferente do turismo em Cedofeita, por exemplo.
CE: Diferente em que sentido?
MJF: É muito mais concentrado. Enquanto que na Baixa "mais alta" os pontos turísticos estão mais dispersos, aqui estão porta com porta. E com isso perde-se bastante, perde-se o verdadeiro "eu" das pessoas. Quando passo por guias turísticos, ouço-os dizer cada disparate. Como, por exemplo, que a zona da Ribeira era um zona de prostituição. Nunca o foi!
GG: Estes projetos também podem ter um papel nisso, trazer alguma verdade para este mundo de turismo.
AO: E sinto que há mais receptividade para isso da parte dos empresários, também. Quando os hotéis se começaram a enraizar cá, eu acho que os donos tinham outra postura, muito mais de distanciamento, mais focados na questão do lucro.
CE: Até porque o próprio produto que eles vendem começa a ficar desfigurado, sem alma.
GG: Exatamente. Mesmo quando falávamos há pouco no isolamento social — eses agentes também começam a sentir esse isolamento.
Habitar o Centro: Devolver a Cidade foi um dos projetos selecionados na Open Call de 2026 na modalidade Criação participada. Na génese destes projetos, um artista conta com os contributos de uma comunidade. A criação artística final reflete a sua visão após este encontro.
As apresentações públicas terão lugar no dia 11 de setembro, com uma apresentação aos parceiros e processos artísticos no Centro Social Paroquial de São Nicolau. O percurso escultórico está agendado para o dia 6 de novembro, no Café Ceuta.

© Inês Aleixo