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A temporada da adolescência no Lagarteiro
Entrevista Lagarteiros em Série

Lagarteiros em Série é um projeto que não começa do zero. Na edição de 2025, Maria Durão e Diogo Costa ja tinham sido apoiados com o projeto 24 Lagarteiros por segundo — um longo trabalho de aproximação a um grupo de crianças residentes no bairro que culminou na produção de uma curta-metragem.


Na edição deste ano, o salto acontece para um novo formato: o da série episódica. Maria e Diogo partem agora para um verão de rodagens depois de alguns exercícios de conceção e escrita com jovens do Bairro do Lagarteiro.

Entrevista Lagarteiros em Série

Diogo Costa (co-criação e direção de fotografia)  © Inês Aleixo

Cultura em Expansão: De quem partiu a ideia de, desta vez, fazerem uma série ao invés de um filme? De vocês, ou dos miúdos?


Diogo Costa: Acabou por ser uma decisão que foi um bocado dos dois lados. Ou seja, tanto nossa, porque queríamos continuar o trabalho, e também dos miúdos, porque eles queriam mesmo que fosse uma série. Até porque, na primeira vez que os conhecemos, em 2025, as experiências deles eram mais relacionadas com séries do que com cinema.

Entrevista Lagarteiros em Série

Maria Durão (co-criação e mediação) © Inês Aleixo

CE: O grupo é exatamente o mesmo da curta-metragem do ano passado?


MD: É o mesmo grupo de miúdos que trabalhou connosco no ano passado — mas agora já estão a passar por outras coisas na sua vida, e com isso o grupo vai tomando dinâmicas diferentes. E lá está, nós não queremos abandonar esses miúdos porque eles também já têm um voto de confiança, já querem ver um trabalho, já começam a dar mais ideias. E já nos levam aos lugares deles, mais privados, daqui do bairro. O sítio onde estamos agora, o café Anos Loucos, é onde eles vão buscar os sumos e as gomas. Assim vamos entrando cada vez mais no mundo deles. Eu acho que a série traz esse lado mais pessoal de cada um, que na primeira vez não foi possível por ser um trabalho muito curto. Com a duração de uma série, podemos aprofundar as histórias de cada miúdo e trazer outros que vão aparecendo.

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No interior do café Anos Loucos, que será palco da primeira apresentação pública do projeto © Inês Aleixo

CE: Desta vez o trabalho também já beneficia do esforço inicial de mediação que levaram a cabo no ano passado. Estão a conseguir entrar num espaço mais íntimo?


MD: Sim! Num espaço mais trabalhado até, diria.


CE: E sentem que eles desta vez estão a apropriar-se mais do projeto?


MD: Sim, e acho que tem a ver com descontraírem muito, porque agora já sabem que isto vai mesmo acontecer. Eles acabam por estar mais descontraídos, não é? Mas por outro lado, também já há uma certa confiança — podermos pedir-lhes para trazerem coisas de casa, como por exemplo uma fotografia de alguém, ou até mesmo enviar-nos um áudio específico sobre alguma história. Acho que agora há mais esse espaço para troca e partilha.

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© Inês Aleixo

DC: E acho que vem também dessa coisa de verem estas filmagens que vamos fazendo, porque com o filme eles só viram imagens algum tempo depois de filmarmos. Aqui, temos logo um primeiro corte do que filmámos, e a partir daí eles ganham mais interesse. Querem sugerir novas ideias, novas fotografias, novas histórias.


MD: Sim, eles já se apropriam de alguns materiais, já pedem para os levar para casa. Até porque agora estamos a tentar outros métodos de os trazer para o processo, com perguntas para irem respondendo — e com elas se trabalhar o argumento. Claro que é sempre uma coisa muito espontânea e muito improvisada com eles, mas isso também só é possível porque já há uma relação de amizade. Agora, com esta confiança que eles têm, também já começam a dizer mais o que querem ou não querem que se filme. E nós também tentamos resistir. Às vezes até nos metemos com eles, a dizer que nós somos os professores e que tem de ser assim (risos). Cada um vai dando a sua opinião e tentando construir uma coisa mais coletiva, mas com todos a tentar puxar a brasa à sua sardinha.

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Exibição do filme 24 Lagarteiros por segundo, em 2025, na Associação Cultural e Recreativa Os Iniciadores © Renato Cruz Santos

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© Inês Aleixo

CE: Há pouco referias-te a eles estarem com coisas novas na sua vida. A verdade é que vocês trabalham com jovens de idade tenra, em que um ano faz muita diferença.


MD: É, só neste pequeno período entre o 24 Lagarteiros e agora, alguns deles entraram numa nova idade. A adolescência é tramada para eles. O que eu sinto mais é que há uma luta por cada um ter a sua voz. Estão a ficar mais velhos, e cada um quer ter razão e impor as suas ideias. Às vezes, os limites entre nós e eles acabam por entrar em choque. Para nós é uma aprendizagem, porque eles estão a criar a sua personalidade — e nós também queremos mostrar isso na série.

MD: Queremos mostrar um bocadinho mais da vida pessoal deles, mas agora já têm muitas resistências e problemas de confiança — e muitas vezes a família não conhece o nosso trabalho e não sabe o que é que eles estão a fazer, o que cria choques e tensões. É muito difícil para nós entrar nesse mundo deles, e também eles abrirem-se em grupo. É muito difícil nestas fases de crescimento entrar, quebrar estas capas, estas máscaras que criam, porque são miúdos com muita resistência e muitas defesas. Mas isso é que é desafiante para nós, enquanto mediadores. Mas é um trabalho difícil.

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© Inês Aleixo

CE: Vocês, desta vez, também querem alargar os vossos sujeitos, e incluir também lojistas e as famílias dos miúdos.


DC: A nossa ideia era através das crianças começarmos a conhecer as famílias ou os tios, avós, a parte mais adulta. E nós sabíamos que não iríamos conseguir isso no ano passado, porque era muito cedo. Primeiro, ainda tínhamos de ter a confiança das crianças. E o que temos reparado, é que conseguimos mais informação através dos miúdos do que através dos pais. Ou seja, eles estão muito mais à vontade a falar sobre os pais e sobre a família quando os mesmos não estão presentes. E chegar à faixa etária mais adulta é difícil porque as pessoas estão a trabalhar e estão ocupadas, então acabamos por ficar um bocadinho fechados ali no Cerc'Arte (IPSS parceira do projeto). Mas acho que a série é precisamente uma forma de nós rompermos um bocado essa barreira. Já por isso, vamos começar a trabalhar aqui com a Belinha, a dona do café Anos Loucos.

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© Inês Aleixo

"Belinha" é o nome pelo qual todos a conhecem. Proprietária do café Anos Loucos ("É uma homenagem a quando eu era mais nova e andava sempre roda no ar"), isso torna-a a anfitriã de muitos encontros. Embora resida no Bairro do Falcão, este é já o segundo café que opera na zona do Lagarteiro.


Foi arrastada para o projeto pelos miúdos que a visitam habitualmente: "quando eles cá vêm, é sempre uma festa". E, entre os tais 20 anos como Belinha, já teve oportunidade de ver diversas gerações de miúdos festeiros: "estes aqui já são filhos de clientes meus que conheci quando eram pequenos".


Para Belinha, os miúdos que integram o Lagarteiros em Série são a fornada mais recente de uma linha de gerações. Mas, com a ajuda de Maria e Diogo, vão ter um arquivo imutável deste momento no tempo.


Este projeto foi selecionado na Open Call de 2026 na modalidade Cocriação comunitária. Esta modalidade compreende projetos que não são feitos para as pessoas, mas com elas. A criação artística resulta da visão conjunta entre os participantes e o artista.


As datas de apresentação dos espetáculos criados no âmbito da Open Call estarão disponíveis em breve.

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