Cultura em Expansão
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O Festival Letras Soltas pretende desdobrar a literatura em diversas texturas e leituras — de ilustração a teatro, serão dois dias com atividades à volta de um foco especial: a obra de Camilo Castelo Branco.
A APARCULT — Associação Portuguesa das Artes e da Cultura — decidiu convocar para este desafio duas camadas da população que, à partida, estariam nos antípodas uma da outra: os séniores do Centro Social Paroquial de Nossa Senhora do Calvário, e as crianças do Centro Juvenil de Campanhã. Em conversa com Helena Oliveira da APARCULT e Ana Sousa do Centro Social Paroquial, percebemos que há mais que une estes dois grupo do que aquilo que os separa.
Cultura em Expansão: Porquê Camilo Castelo Branco?
Helena Oliveira: Eu gosto muito de literatura, mas Camilo era obra obrigatória na escola. E nessa altura há sempre aquele afastamento: por rebeldia, por ser uma coisa obrigatória, e acabamos por perder o fio à meada. Mas a verdade é que as coisas que li dele foram ficando comigo — as leituras obrigatórias afinal funcionam! (risos). Acho que esse é também o poder da literatura. Quando desenhámos o projeto, estava a decorrer o bicentenário da sua morte, e achámos que faria todo o sentido pegar na obra dele e mostrar como o que ele queria são no fundo as mesmas coisas que queremos hoje em dia. Ele era muito mordaz nas suas críticas à sociedade, e hoje em dia nós estamos a ver de novo isso — uma sociedade que está muito polarizada. No caso da obra dele também é muito interessante ver, para além da polarização, como havia mais diálogo, mais comunidade. E acho que está também na hora de nós voltarmos a não ter medo dos clássicos e voltarmos a pegar neles.

Helena Oliveira © Renato Cruz Santos
CE: E como é que fizeram a ponte para estas duas comunidades que vocês estão a trabalhar, que são quase diametralmente opostas?
HO: Nós já sabíamos que queríamos trabalhar vários tipos de expressão artística, para além da literatura — coisas mais práticas como colagens. E estávamos a pensar que realmente estas seriam duas faixas muito diferentes — mas a partir do momento em que começámos a falar com elas, percebemos que não são assim tão diferentes quanto isso: porque os sonhos ainda são os mesmos. Aprender a andar de bicicleta é um sonho que nós temos com 5 anos, mas também temos com 90. Ser bailarina também é um sonho muito comum que as pessoas não concretizam. E começámos a ver que realmente havia aqui muitas coisas que faziam sentido nos dois lados. E, depois, porque Camilo fala muito sobre este desejo de querer ser mais, de querer fazer mais, e acho que isso é um choque com a realidade que nós temos à medida que vamos crescendo. As crianças querem ser tudo e mais alguma coisa, e depois vão crescendo, e a sociedade vai lhes impondo limites e vai fechando-as cada vez mais. E acho que isso é um paralelismo mesmo muito grande com a obra de Camilo.

Centro Social Paroquial de Nossa Senhora do Calvário © Renato Cruz Santos

Mediadoras do projeto em diálogo com os utentes do Centro Social © Renato Cruz Santos
CE: Essa limitação de possibilidades, por outro lado, já se lavrou por completo na terceira idade.
HO: A população sénior sente isso na pele. Viveu, ainda por cima, numa altura em que as possibilidades eram muito limitadas por imposições sociais. Nós conseguimos ver isso muito bem quando falámos com eles. Ou seja, nós tanto vemos sonhos que não foram concretizados, ou, por outro lado, sonhos que, por mais pequeninos que sejam, aconteceram. É bonito e ao mesmo tempo triste de ver.

© Renato Cruz Santos
CE: Sabiam à partida que iam recorrer a este ângulo dos sonhos para explorar a obra de Camilo?
HO: Nós pensamos muito nas emoções todas de Camilo e temos, por exemplo, o amor romântico, que é incontornável na sua obra. Há muito tipo de amor diferente, e as crianças até conseguem compreender esse tema. Mas quanto aos adultos, nós começámos a ver que muitos deles nunca tiveram essa questão do amor romântico — porque o casamento era imposto. Portanto, este foi um ângulo acabámos por deixar ali um bocadinho à margem. A tragédia também é muito comum na obra, mas era um tema que não fazia tanto sentido explorar com crianças. Por fim, começámos a olhar para a questão do desejo — do que é que cada um gostava de fazer, de concretizar. Foi assim que chegámos ao sonho.
CE: E como sentem que o processo tem decorrido com cada um dos grupos?
HO: Nós já tínhamos uma noção concreta, de outro tipo de atividades com as mesmas faixas etárias, de que ambas ainda estão muito à margem da literatura. Portanto, nós já sabemos que temos de trabalhar de outra forma com eles. Mas o que está a ser mais bonito é a maneira como as pessoas nos surpreenderam — tendemos a achar que tanto crianças como idosos são diferentes de nós, mas são apenas fases diferentes da mesma vivência.

© Renato Cruz Santos
CE: A Ana Lúcia já trabalha com idosos há algum tempo, também verifica este potencial dos sonhos?
Ana Sousa: Sem dúvida, eles continuam a ter os seus sonhos. Alguns até conseguimos que eles ainda os realizem. Por exemplo, há uma senhora aqui que numa festa fez uma atuação como bailarina, que era um sonho dela que não realizou — mas aqui, a título de brincadeira, até aconteceu. Outra nunca foi mãe, e num carnaval arranjámos-lhe uma barriga de gesso. E eles ainda alinham muito nestas brincadeiras e nestes desafios que eu lhes vou propondo.
CE: E como tem sido receber o desafio do Festival Letras Soltas?
AS: Eu acho que tem vindo a evoluir muito. Na sessão da semana passada houve muita participação dos nossos utentes. E estou muito curiosa com o desenvolvimento do projeto. infelizmente, não vai ser possível levar os idosos à inauguração da exposição, mas vamos nós e vamos gravar muitos vídeos.

Ana Sousa, animadora social do Centro Social Paroquial Nossa Senhora do Calvário © Renato Cruz Santos
CE: No fundo, com estes dois pólos, cada um dos grupos só conhece metade do projeto. Como está a ser fazer a união do que se produz em cada grupo?
HO: Existe sempre a noção geral de trabalhar a ideia do sonho, e a ideia do que queremos ser. E a aplicação disso podem ser coisas tão complexas ou tão simples quanto os participantes quiserem. Um exemplo concreto: no primeiro workshop aqui fizemos colagens, que era o mais simples possível. Para desbloquear o medo deles da literatura — porque essa era a primeira barreira, o medo. Só depois desse passo passamos para a aguarela. Hoje, estamos já a trabalhar o teatro — por isso avançamos aos poucos.
CE: Mas, no final, todas estas expressões terão de resultar numa só aplicação.
HO: Isso é a parte mais interessante. Temos uma ideia inicial e temos seguido um plano, mas ele tem vindo a mudar ao longo do tempo. Esta noção de juntar os sonhos, inicialmente nós tínhamos pensado em fazê-la de forma separada, porque íamos achar que eram duas coisas muito diferentes Se calhar ia ser até um pouco triste para a população mais idosa estar a rever-se nesta questão dos sonhos. Mas não, antes pelo contrário, começamos a ver que fazia sentido juntar, e acho que é essa a parte que tem mudado mais, a nossa noção do que é que a exposição final vai ser.

© Renato Cruz Santos
O Festival Letras Soltas foi um dos projetos selecionados na Open Call de 2026 na modalidade Criação participada. Na génese destes projetos, um artista conta com os contributos de uma comunidade. A criação artística final reflete a sua visão após este encontro.
Esta exposição de proximidade abre uma primeira janela sobre o percurso criativo desenvolvido com as crianças do Centro Juvenil de Campanhã. Entre palavras, imagens, gestos e pequenas histórias, apresenta-se uma seleção de trabalhos e vestígios do processo que revelam como o universo de Camilo Castelo Branco foi sendo descoberto, interpretado e transformado.
Mais do que mostrar obras concluídas, a exposição procura tornar visível aquilo que acontece durante a criação: as experiências, as escolhas, as memórias e as ideias que dão forma a cada trabalho. Algumas das peças aqui apresentadas seguirão depois para a exposição final do Festival Letras Soltas.
É um momento de partilha com a comunidade e de valorização das crianças enquanto coautoras, dando espaço às suas formas de olhar, contar e imaginar.
Esta exposição de proximidade apresenta um primeiro retrato do percurso criativo desenvolvido com os participantes do Centro Social Paroquial Senhora do Calvário. A partir da obra de Camilo Castelo Branco, memórias, lugares, afetos e experiências pessoais foram transformados em imagens, palavras, texturas e composições visuais.
A mostra reúne uma seleção de trabalhos e elementos do processo, deixando ver não apenas aquilo que foi criado, mas também os caminhos, encontros e histórias que estiveram na sua origem. Parte destas peças integrará mais tarde a exposição final do Festival Letras Soltas.
Ao trazer o trabalho para o espaço onde nasceu, esta apresentação devolve-o à comunidade e valoriza cada participante enquanto autor e portador de memória, tornando visível a criação como lugar de encontro entre experiência pessoal, património literário e expressão artística.