Cultura em Expansão
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Aconchegada entre duas grandes artérias que radiam a partir da Estação de Campanhã, a massa de ilhas da Lomba projeta-se no imaginário portuense a uma escala desproporcional. E isso deve-se à Associação de Moradores da Lomba, que desde o final dos anos 70 tem uma atividade ininterrupta de dinamização cultural e preservação de memória.
Numa calorosa manhã de julho, atravessamos o café da Associação e, chegando ao abrigo refrescante do espaço multiusos, encontramos Alexandre Curopos, de guitarra na mão, a cantar com um grupo de jovens octogenários, dispostos em círculos em frente à imponente cascata de São João que a Associação ainda orgulhosamente exibe. É mais uma oficina do projeto Lomba em Comum, que pretende dar corpo a um possível legado cultural desta zona — contando para isso com um grupo das memórias mais longas que por ali se encontram.
Depois de uma ronda de improviso em que cada um canta trechos de um tema próximo ao coração, Alexandre lança o desafio: cantar, pela primeira vez, a versão musicada de pequenos versos construídos a partir de escritos recolhidos na sessão anterior. Os versos, diversos, recolhem as impressões de cada um no caminho até à Associação.
E, embora muitos se foquem na Associação em si — do palmarés desportivo aos clientes habituais do café — há muitos que se referem ao ruído e pequenos inconvenientes das obras. Desde o início de 2025 que a Lomba está a ser alvo de um grande esforço de requalificação pelo programa municipal Rua Direita, transformando as suas já serpenteantes ruas em pequenos puzzles de obstáculos e desníveis. Enquanto se discute o arranjo musical, a natureza de cocriação deste projeto assoma: Dona Teresa discorda da forma como a canção termina, abruptamente. Argumenta que o final de uma canção deve ser lento, para as pessoas perceberem que está a terminar, e que devem aplaudir — de imediato, ensaia-se o novo fecho, e a versão segue aprovada por maioria. No final da sessão, procuramos perceber com Alexandre o que esperar deste cruzamento de memórias entre o que a Lomba é, o que foi, e aquilo que poderá vir a ser.

© Renato Cruz Santos

Alexandre Curopos (direção artística) e Inês Luzio (apoio à direção) num ensaio do Coro Criativo Sénior © Renato Cruz Santos

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Cultura em Expansão: Nota-se que não és um estranho à Associação. Como é que começa a tua relação com a Lomba?
Alexandre Curopos: Entretanto já me mudei, mas costumava morar aqui no Bonfim. E nessa altura desenvolvi um projeto aqui na Lomba que era o Coro dos Vizinhos. Era um projeto que juntavas pessoas séniores da Lomba, sendo que algumas delas estão neste projeto também. Já nessa altura, o projeto também tinha como objetivo que as pessoas se conhecessem — tínhamos casos como o da Dona Lúcia, que morava desde os seus 20 anos na Lomba, mas mal saía de casa. E, na altura, quando o projeto terminou, havia muita vontade dos membros de continuar a fazer coisas — e é assim que surge o Lomba em Comum.

© Renato Cruz Santos
CE: E qual é o objetivo último do Lomba em Comum?
AC: No final, como estamos a fazer música, a ideia chegará sempre ao ponto de fazermos uma atuação —mas queria que esse ponto final fosse construído em conjunto, e que se desenvolvesse esse produto final através do processo. Ou seja, não é uma coisa super definida, mas seria algo que falasse sobre a zona. Porque algumas destas pessoas vivem cá, outras vieram cá pela primeira vez a semana passada. Também vou fazer algumas entrevistas a pessoas que cá vivem há vários anos, outras há menos, mas que sintam a Lomba de uma forma próxima. E ainda há pouco o grupo estava a falar das obras — são estas as dinâmicas que interessa perceber: a memória do lugar, e as transformações que ele está a ter.
CE: Ou seja, achas que para este momento de transformação é fundamental recuperar a memória.
AC: Exatamente. Eu até estava a falar no ensaio, desde que foi aprovado o projeto de renovação de ilhas, algumas das pessoas que viviam aqui ao lado da sede da Associação, foram realojadas. Eu soube de algumas que foram para um bairro em Contumil e que, sendo também pessoas idosas, têm alguma relutância em voltar porque já não é a mesma casa, já não é o mesmo bairro. Então a ideia também é construir algum sentimento de pertença junto das pessoas que ainda cá estão. Ficarem com esse sentimento, com essa associação, com essa vontade de poder permanecer e de ter algo com que se identifiquem. Portanto, o produto final seria essa apresentação, mas tenho também a ideia — aliás, a ideia não, a concretização — de fazer uma gravação das músicas que vamos criar para deixar como herança musical aqui da Lomba. Isso seria algo que depois daríamos à Associação, que daríamos às pessoas de cá, e também é algo a que elas se possam agarrar (apesar de não ser super tangível) e dizer: eu fiz isto, isto é daqui da Lomba.

© Renato Cruz Santos
CE: Como é que está a decorrer o processo de captação, de trazer as pessoas para o projeto?
AC: Estamos ainda a fazer a mobilização com as pessoas que pertenceram ao antigo do Coro dos Vizinhos. Temos também uma parceria com a Associação Fios e Desafios, e também entramos em contato com o Centro de Dia que se chama Senhor do Bonfim, que é ali na rua Padre António Vieira. Entretanto também estávamos a pensar dar uma volta aqui pela Lomba em que, com os participantes, estivéssemos a cantar e a chamar mais pessoas para se juntarem a nós. Ainda estamos a fazer esse projeto de mobilização. Um processo continuado em que, se alguém se quiser juntar também mais para a frente, não iremos recusar com certeza a sua vinda.

Beatriz Lobo, Educadora Social da Fios e Desafios, em dueto com a participante Aurora Rodrigues © Renato Cruz Santos
CE: Como é que tens sentido que tem sido a adesão dos participantes? Estão a assimilar o projeto, dão opiniões sobre o que pode ser o produto final?
AC: Sim, desde o início que procuramos essa abertura, e dissemos que é um projeto que tem como objetivo final falar sobre a Lomba. Vimos algumas pessoas com alguma relutância, porque se calhar têm uma expectativa de cantar as canções tradicionais que já conhecem. Agora já estamos a fazer uma coisa mas com uma roupagem com que se identificam, com a letra que eles próprios escreveram — com uma proposta musical que, se calhar, soa a algo que as pessoas reconhecem. E aí já vês as pessoas mais contentes, já a dar sugestões de fazer de certa forma ou de outra. Ou seja, notamos que é mais no fazer que as pessoas começam a ficar envolvidas.

© Renato Cruz Santos

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CE: Quantos aos próximos passos, será para continuar com ensaios semanais?
AC: Os ensaios neste momento são às quintas-feiras de manhã, por volta das 11h15 — mais ou menos, porque os que vêm do centro do dia vêm de uma atividade com a qual nós não queremos entrar em competição, que é uma freira que vai lá fazer serviço religioso (risos). Se calhar podemos perder essa competição. A partir de setembro, em princípio, iremos passar para horário de tarde, porque no inverno é mais agradável do que pelo frio da manhã, e temos de ter esses cuidados com as pessoas que temos. Também a partir de setembro, vamos abrir uma open call para outras pessoas aqui da zona, não só séniores, para poderem vir participar daquilo que estamos a definir como uma toccata — que seria um grupo de instrumentistas de música tradicional, associados muitas vezes a ranchos. Numa primeira fase esse grupo ensaiaria à parte, com as coisas que estamos a criar no grupo de criação (que tenho chamado "Coro Criativo Sénior"). Mais para o final, começar a juntar as duas e também ter a participação de outros músicos do projeto, nomeadamente a Rita Só e o Zé Figueiredo, que vêm tocar connosco.
À margem da entrevista, falamos também com Dona Teresa,que, do alto dos seus 85 anos, já não tem grande margem para ambiguidades: "Gosto mesmo muito disto. Já pertenci ao Coro dos Vizinhos, e também gostava muito das festas que fazíamos". O estatuto de veterana destas cantigas também traz outra proximidade: "Gosto muito da Beatriz e do Alexandre. Já temos convivido, eles para nós são como se fossem amigos". Fala-nos de que para cantar é preciso alegria e, embora "a juventude já tenha passado", sempre se considerou uma pessoa alegre. Para rematar, sobre o que espera deste projeto: "Espero que saia daqui um belo disquinho, e que estes jovens progridam com isso, porque eu estou aqui também é para ajudar!".

© Renato Cruz Santos
Lomba em Comum foi um dos projetos selecionados na Open Call de 2026 do Cultura em Expansão na modalidade de criação participada. Nesta modalidade de apoio, um artista conta com os contributos de uma comunidade. A criação artística final reflete a sua visão após este encontro.
Informações sobre as datas de apresentação deste espetáculo estarão disponíveis em breve.