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NATIVUS:ENSEMBLE procura músicos residentes no Porto
Entrevista NATIVUS:ENSEMBLE

O auditório vazio do Conservatório de Música do Porto, onde nos encontramos com Bruno Pinto, é um ponto de partida simbólico para aquilo que quer construir. Juntamente com outros músicos, o líder do projeto musical :papercutz quer dar uso às ferramentas que tem e convocar artistas migrantes da cidade para criar NATIVUS:ENSEMBLE.  


Deste cruzamento de talentos –– formados ou autodidatos; o que interessa, no fundo, é a musicalidade de cada um –– pretende-se criar um repertório original que cruze múltiplas tradições instrumentais numa linguagem contemporânea. Se, por um lado, a equipa de músicos procura artistas que deem corpo a este ensemble plural, a visão do projeto tem num horizonte mais longo: o de dotar estes artistas de formação, continuidade e um palco para a criação livre.  


O palco do auditório do Conservatório é um lugar-comum para o produtor, em todos as leituras possíveis da expressão, já que foi ali que estudou e atuou durante anos. Foi precisamente aqui que ficámos a conhecer melhor o projeto e que tipo de artistas procura para o integrar. 

Cultura em Expansão: Como surgiu a ideia de NATIVUS:ENSEMBLE?  


Bruno Pinto: É uma conjugação de múltiplos fatores. Tenho um projeto que se chama Do.Outro.Lado.Do.Espelho, que se iniciou no Conservatório de Música do Porto, em que trabalhei com músicos que tiveram formação nesta escola e se alargou a outros conservatórios do país, chegando mesmo ao território insular.

E o projeto coloca músicos profissionais e emergentes com outros alunos de outros conservatórios ou de formações em bandas filarmónicas. Portanto, esta ideia de juntar músicos profissionais com uma formação um pouco mais amadora já existia. Ao mesmo tempo, tive um projeto que aconteceu na Islândia –– um país com o qual tenho uma longa relação artística –– e eles tinham um projeto europeu em que realmente acolhiam imigrantes. Achei tudo o que aconteceu bastante interessante. No caso do meu grupo de música em particular, :papercutz, sempre tive interesse numa abordagem global. Já trabalhei localmente com artistas europeus, americanos e asiáticos e estou a esforçar-me por ter um espetro cada vez mais amplo. O território africano é um que ambiciono explorar, assim como o asiático, onde pretendo continuar o trabalho já feito ao longo de alguns anos, sendo a China o próximo desafio.

Portanto, foi conjugar todos estes elementos e uma vontade de tentar criar uma sonoridade contemporânea, global, mas, em vez de juntar simplesmente duas formações profissionais, a ideia é ir buscar estes músicos emergentes e músicos em formação. A formação erudita –– que não é a minha –– é muito fechada. O repertório tende a ser repetido e não há grandes encontros. Os músicos migrantes, na cidade de Porto, estão um bocadinho excluídos do circuito profissional. Portanto, a ideia é tentar juntar estes fatores todos. 

Entrevista NATIVUS:ENSEMBLE

Bruno Pinto é o diretor artístico do projeto © Renato Cruz Santos 

Entrevista NATIVUS:ENSEMBLE

O Conservatório de Música do Porto, a ESMAE e o Teatro Helena Sá e Costa são os vários espaços de trabalho do NATIVUS:ENSEMBLE © Renato Cruz Santos   

CE: Há algum perfil específico que procurem?  

 

BP: Neste caso em particular, estamos abertos a propostas diversas. À partida, tem que ser alguém que detenha algum conhecimento musical, mas vamos partir do princípio que nos chegam músicos que tiveram uma formação totalmente prática. Porque é que não hão-de ser bem-vindos? Podem não saber ler uma pauta, tudo bem, mas já temos outros músicos que podem acompanhá-los nesse sentido. O importante é que tenham sensibilidade artística e, acima de tudo, uma expressão sonora genuína. Estamos abertos a isso tudo. Mas, eu diria que, sobretudo, este projeto quer estar um bocadinho atento e não excluir logo à partida. É um risco, porque não há certezas quanto ao resultado final, mas é exatamente por contraponto, o seu grande potencial.

 

CE: Portanto, também podem juntar-se ao projeto músicos autodidatas? 

 

BP: Exatamente. Essa é que é a questão. Acho que vamos encontrar muitos músicos nesse sentido –– alguém que tem, além de um gosto pela música, algum conhecimento da sua tradição musical. Mas vamos partir do princípio que essa pessoa tem alguma base de tradição dentro dela, ou até tem um instrumento em particular que domina –– muitas vezes não há escolas para esses instrumentos, a verdade é esta. Já o piano é estudado há centenas de anos. Há certos instrumentos para os quais, muito provavelmente, não existe sequer uma formação erudita ou uma formação clássica. Portanto, nós temos que estar abertos a isso. O projeto é uma experiência de aprendizagem para todos os envolvidos –– será um laboratório humano de criatividade no Porto que o Cultura em Expansão representa, acredito.

Entrevista NATIVUS:ENSEMBLE

© Renato Cruz Santos   

CE: Querem trabalhar um repertório específico? 

 

BP: Tudo criações originais. Mais um risco que vamos tomar. Vou trabalhar com algumas pessoas na parte da composição e da orquestração. Pode chegar ao ponto de termos que reinterpretar alguns temas que já existem, se sentirmos que as coisas estão a divagar. Mas, neste momento, a ideia é criar um repertório original ou algumas bases.  

 

CE: Podes falar um pouco das pessoas que estão a colaborar contigo neste projeto e que farão parte do Ensemble?  

 

BP: São várias. Cada uma destas pessoas traz uma coisa muito específica. O Francisco [Fernandes], que vai trabalhar diretamente comigo, é um multi-instrumentalista e será fundamental para o processo de composição e orquestração. A Marisa [Oliveira] tem formação em composição também, mas vem com experiência em trabalho comunitário. O João [Ferreira] tem experiência em produção. Isto vai ser muito importante, porque será uma logística complicada em termos de ensaios. Por exemplo, é ele que vai gerir a parte do Conservatório, é ele que vai gerir a parte do espetáculo final ao vivo. Portanto, cada uma destas pessoas traz alguma característica muito própria. No meu caso, tenho um trabalho de direção artística, composição e curadoria. Ou seja, fui eu que montei esta equipa. 

CE: E qual a relação entre os vários espaços onde vão trabalhar?  

 

BP: Posso estar errado, mas garanto que a maior parte das pessoas que passa a 50 metros daqui não sabe que nós temos esta sala no Conservatório, neste momento. Aliás, estamos a preparar alguns ensaios abertos –– para quem quiser assistir, além dos alunos. Há muita gente que desconhece que esta sala existe e passa todos os dias numa rua muito próxima daqui. Sabe que existe uma escola, se calhar sabe que existe o Conservatório e algumas instalações, mas nem tanto o que acontece. Acho que estas instituições deveriam estar um bocadinho mais abertas. Nós temos como plano que isso possa acontecer. Elas reconhecem que isso tem valor –– aliás, gostaram muito desta ideia de estarem integrados num programa do Cultura em Expansão. E também quero que sejam reconhecidas, porque estas escolas, o Conservatório de Música e a ESMAE, têm feito um trabalho fenomenal na cidade. Há músicos que saíram com um, dois anos e estão nas maiores orquestras que existem.  Trabalhei com uma harpista que teve a melhor nota de harpa e a pessoa que está neste projeto foi professora dela. A ESMAE acrescenta a questão de produção musical, de como dirigir espetáculos. Isto deveria ser mais reconhecido. É isso que nós estamos a fazer. 

Entrevista NATIVUS:ENSEMBLE

© Renato Cruz Santos   

CE: Para além do espetáculo, que benefícios conseguem proporcionar aos artistas que decidirem participar?  


BP: No início da minha carreira, tive muitas portas fechadas em termos editoriais. O tipo de música que eu fazia era considerado demasiado alternativo. Uma das coisas que eu aprendi é a importância de acederes a determinados mecanismos de apoio. Nós não estamos simplesmente a dizer a estes migrantes para virem tocar e irem-se embora. Depois de terminar o espetáculo –– que nós podemos vir ou não renovar no próximo ano –– eles terão uma formação. Se querem ser músicos profissionais, explicamos o estatuto, em termos de carreira, que regras se aplicam e que formas de apoio têm à disposição. Eu tenho a sorte, ou o azar –– porque às vezes uma pessoa fica um bocado frustrada por não ser apoiada –– de já ter trabalhado com essas entidades. A pessoa que os vai aconselhar tem uma formação específica de como mediar estes processos e como desenhar bem o próprio projeto. Não é que haja propriamente uma barreira física –– há mais o desconhecimento. E nós queremos passar essa informação. Não querendo dizer que, se calhar, eles já não conhecem, mas vamos partir do princípio de que podemos ajudar. 

CE: Para quem estiver interessado em participar, como estão pensadas as várias fases de trabalho? 

 

BP: Recolhendo as pessoas interessadas da Open Call, a ideia é começar os ensaios, ou aquilo a que chamamos de “laboratórios”. Queremos colocar estes músicos em contacto, partilhar um pouco a experiência dos seus instrumentos –– ou da sua tradição musical –– e começar um trabalho de composição. Não resultará num espetáculo de 60 minutos, mas sim de 40 ou 45. É mais um showcase daquilo que foi –– acaba por ser uma residência criativa, se formos a ver. E, por norma, as residências não têm espetáculos finais como um espetáculo regular é conhecido por ter. E, portanto, a nossa ideia é, precisamente, que eles comecem a ensaiar já em agosto, e depois, idealmente, teremos ensaios de criação, ensaios de algum desenvolvimento artístico, e depois os ensaios de preparação para o espetáculo final no Teatro Helena Sá e Costa. Será um processo bastante exigente, mas acredito que trará um sentimento de grande realização a todos os envolvidos.

Entrevista NATIVUS:ENSEMBLE

Os ensaios começam já em agosto, no Conservatório © Renato Cruz Santos   

NATIVUS:ENSEMBLE foi um dos projetos selecionados na Open Call de 2026 do Cultura em Expansão na modalidade de criação participada.  Nesta modalidade de apoio, um artista conta com os contributos de uma comunidade. A criação artística final reflete a sua visão após este encontro.


Partindo da ideia de que a música é uma linguagem sem fronteiras, e da cidade que se pretende cada vez mais plural, procura, junto da comunidade migrante, participantes que queiram dar voz à sua experiência e integrar ativamente este ensemble.  


Os candidatos devem possuir formação musical ou experiência comprovada no seu instrumento musical, bem como um registo em vídeo ou áudio que ateste o seu percurso artístico. Não são exigidos graus académicos específicos –– valoriza-se sobretudo a sensibilidade, a abertura ao diálogo intercultural e a disponibilidade para um trabalho colaborativo. 

  

Os artistas interessados deverão manifestar interesse (ou pedir mais informações) através do email nativusensemble@gmail.com

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