Cultura em Expansão
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Quando em maio apresentámos a primeira temporada do Cultura em Expansão na Associação de Moradores da Zona do Campo Alegre, chegámos a uma conclusão que é já óbvia para quem ali vive. Na Rua João Martins Branco existe um porto seguro onde é fácil perdermos algumas horas do nosso dia –– a observar os animais que vivem em comunhão naquele espaço; a desfrutar dos bancos e das diversões do parque; e a relaxar no próprio bar da Associação, que serve, na opinião de muitos, os melhores rissóis da cidade.
No regresso ao espaço da Associação de Moradores do Campo Alegre, nesta manhã de julho, a experiência não foi menos agradável. Os coelhos já saltitam pelos espaços verdes (e é possível que um deles, entretanto, fuja para a estrada principal –– algo recorrente), crianças descalças correm entre baloiço e escorrega, e na esplanada já são servidos cafés.
É neste cenário idílico que nos encontramos com quem está P’ra lá de Hollywood, no mapa das estrelas*: Mafalda Lencastre (diretora artística), Acúrcio Santos (membro da direção da AMZCP), Henrique Tomé (produtor cultural do espaço Agra) e Alice Prata (produtora do projeto), mesmo antes de partirmos para a sede da associação, uns metros mais abaixo.
O que nos reúne para uma conversa informal –– que acontece entre o visionamento de fotografias datadas dos anos 70 até à década de 2000 –– é o projeto P’ra lá de Hollywood, no mapa das estrelas*, um dos selecionados na modalidade de criação participada da Open Call deste ano. O trabalho estreito entre a associação e o Espaço Agra tem sido fundamental para desmistificar a premissa que dá nome ao projeto: o que existe para além do Bairro dos Poetas (ou de Hollywood, como é afetuosamente conhecido pelos locais)? A resposta revelar-se-á num audiowalk que bebe da História do bairro, mas também das histórias que resultam do associativismo que tem vindo a ser construído na zona e que em 2026 celebra 50 anos de existência.
Cultura em Expansão: Conta-nos como começou a associação.
Acúrcio Santos: Nós fizemos um projeto e pedimos dinheiro ao Fundo de Fomento da Habitação. Foi a Soares da Costa que nos construiu as instalações e, no final de 2014, estava tudo pago. Isto era um projeto para três fases –– era a primeira aqui, na sede da associação, a segunda na Rua de São Paulo, perto da Petúlia. Só que pronto, construíram aqui, mas o resto não nos deixaram fazer. Os terrenos eram muito caros, como ainda hoje. As casas são das pessoas e ninguém paga nada a não ser uma amortização mensal. Atualmente, temos pouca juventude para dar continuidade à Associação e, se isto cai nas mãos da Câmara, começam a estipular rendas para pessoas que já não têm idade de as pagar, porque é quase tudo reformado.
Mafalda Lencastre: E é essa a grande questão, não é? De futuro, como é que a coisa vai? Há pouca juventude e muitos não voltam para aqui. Ou não querem viver aqui, ou emigram. E, realmente, isto não se faz sem estes encontros semanais e mãos à obra. Eles pegaram literalmente em pás e fizeram as coisas.
AS: Eu, por exemplo, tenho 22 mandatos nesta casa. Já estava na reforma, sossegadinho em casa e tive que voltar para dar um mãozinha. Não havia corpos gerentes. Quando comecei isto, tinha 15 anos de idade, e tenho agora 67. Portanto, toda esta minha vida foi dedicada à associação: a formar miúdos, a fazer uma infinidade de coisas. Nós, quando começámos (desculpem a expressão) também pegámos o touro pelos cornos. O que é que nós percebíamos disto? Hoje temos uma relação ótima com a Câmara do Porto, com a Junta de Freguesia –– porque nós também cumprimos as regras. Não entramos em campos que não são nossos. Fazemos aquilo que é a nossa parte e ajudamos a construir aquilo que eles idealizam.

© Renato Cruz Santos

© Renato Cruz Santos
CE: Que outras mais-valias oferecia a associação?
ML: Falaram-me de 30 mil atividades. E muitas viagens, muitas visitas de estudo. Depois havia viagens de homens, outras só de mulheres. A questão do género, aqui, sempre foi muito igualitária. Houve uma altura em que só havia mulheres na direção da associação.
AS: Foi. Tivemos a cota máxima nacional. Eram dores de cabeça para mim, porque não estava a ver isto a ter sucessão. Um dia, estava em Leça com a minha mulher e ligou-me alguém que depois presidiu muitos anos a esta casa, a Manela, a dizer, “olha, já temos lista”. E eu até parei o carro. Onze mulheres!
ML: Também há um histórico grande de pessoas de fora que acabaram por contribuir porque gostavam do projeto.
AS: Exatamente.

© Renato Cruz Santos
CE: Sobre o P’ra lá de Hollywood: qual é o ponto de partida do projeto?
ML: É um bocadinho cruzar a história burguesa desta zona com as histórias de vida de quem vive aqui. E não há realmente relações de vizinhança propriamente estreitas. Mas há visões muito cómicas de um lado e do outro. Nomeadamente, quando a Associação veio para aqui, os "ricalhaços” não queriam.
AS: A Vera Lagoa, que escrevia no jornal O Diabo, chegou a chamar a isto um “mamarracho de habitação”.

© Renato Cruz Santos
CE: Já têm vindo a fazer um trabalho de auscultação a várias pessoas. O que é que conseguem destacar nos vários testemunhos?
ML: As pessoas falam disto com entusiasmo e têm noção do privilégio que foi viver aqui. Cresceram com tudo e mais alguma coisa que uma criança pode ter para ser feliz –– com sentido de comunidade, com abertura, com viagens, com igualdade de género, com segurança. Eu ainda não cheguei às pessoas que estão mais em casa, porque há a questão do envelhecimento do bairro. Há escadas, e há pessoas que vão começar a deixar de circular... Já estamos a falar dessas soluções –– o que é que vão fazer, o que é que não vão fazer. Porque, no fundo, ainda não havia gerações a envelhecer a este ponto, mas isso é um problema transversal a todos os prédios que não têm elevador. Gostava também de ter algumas vozes de crianças. Mas as mães reagem todas... “Oh, o meu filho! Ou é tímido ou quer andar com o telemóvel.”
AS: Na geração da minha filha eram todos muito disponíveis. Até formaram aqui "O Jornalinho”, que era um jornal interno feito por eles. Depois iam a casa das pessoas e perguntavam sobre isto, sobre aquilo. Desenvolviam vários temas, era engraçado. Também formámos um grupo de teatro com eles, depois fazíamos intercâmbios, íamos com o nosso grupo de teatro, por exemplo, até à Arrábida. Havia aqui uma interligação muito, muito forte.
ML: No outro dia, contaram-me uma história que eu achei espetacular. Na pandemia, criaram uma coisa que era a “Música do Bairro".
AS: Fui eu que a criei. As pessoas mais velhas não tinham mobilidade para descer as escadas, então estarem naquela solidão... Lembrei-me de propor, na altura, aos corpos-gerentes, que fizéssemos uma animação. Tínhamos que ter algumas crianças na rua a ver se vinha a polícia. Aquelas coisas (risos).
CE: Pretendem, também, recolher vozes do Bairro dos Poetas?
ML: A ideia é cruzar a História com as histórias, pelo menos. Não sei se vou ter História e histórias ou se vou ter só histórias, porque a Mónica já garante essa parte sobre o bairro de Hollywood, que é muito interessante.
Henrique Tomé: É um sítio curioso. Por exemplo, a sinagoga é na mesma rua que o Colégio Alemão do Porto.
ML: Foram projetadas, pelo mesmo arquiteto, uma sinagoga e um colégio alemão. É uma zona super rica. Tens o clube inglês, tudo aqui num raio muito pequeno, em pleno centro da cidade. Há imensa história e eu acho isso fascinante. Depois tens os novos que chegaram agora, o Espaço Agra e o RCA, que também dinamizam ali gente todos os dias.
HT: Mas, lá está, também é importante não ser uma ilha isolada no meio de um bairro já com imensa história.
CE: Foi por não quererem ser uma ilha que surgiu a ideia para este projeto?
HT: Há duas partes distintas aqui. A parte mais específica do audiowalk é muito mais atribuída à Mafalda do que a nós. O Espaço Agra, antes de o ser, era um clube desportivo que já tinha ido à falência há muito tempo e foi todo reconvertido para ser um espaço cultural enorme. E, entretanto, também surgiu o RCA, que é um dos nossos residentes e também é programador cultural. Mas a missão do Espaço Agra é ser um centro artístico numa zona da cidade onde não é comum ter um espaço deste tamanho.
ML: É um convite do Espaço Agra para estreitar vizinhanças. Na altura, quando me convidaram para o projeto, pensei “como é que eu crio um olhar horizontal e despolarizador sobre isto?” e achei que através de um espetáculo não seria realista fazê-lo.

© Renato Cruz Santos

© Renato Cruz Santos

© Renato Cruz Santos
A materialização do audiowalk deverá passar, como comentam ainda os criadores do projeto, por torná-lo acessível a todas as pessoas interessadas em fazê-lo, independentemente da sua relação com este território. Pretende-se que este mapa atemporal possa tanto ser ouvido pela "senhora que vive na casa ali acima", pelos utentes do Espaço Agra e da Associação ou qualquer curioso que pretenda descobrir o que fica, efetivamente, para lá de Hollywood.
Este projeto foi selecionado na modalidade de apoio de criação participada, em que um artista ou vários contam com os contributos de uma comunidade. A criação artística final reflete essas visões após este encontro.
As informações sobre as datas de apresentação deste projeto serão reveladas em breve.