Cultura em Expansão
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“Há Beleza em todas as idades” é a mensagem afixada no mural de fotografias com que nos deparamos quando entramos num dos salões do Centro Social da Foz do Douro. Os rostos que nos olham são de tempos diferentes, e alguns deles –– mais velhos mas nem por isso menos expressivos –– estão mesmo neste salão onde opera o Centro de Dia.
Olham-nos com alguma timidez, mas outros recebem-nos sem reservas, como é o caso de um dos utentes que nos oferece as nozes que descasca numa das mesas ao canto (aceitamos também sem reservas).
Na azáfama da chegada de mais idosos ao Centro de Dia –– porque os mais pequenos, esses, saíram para outras atividades de verão –– uma utente fala com um dos criadores do projeto Passeio Alegre.
Sabemos que partilha histórias de uma “Foz anterior” até porque, antes disso, estivemos à conversa com Francisco Moura Relvas, João Pedro Amorim (cooperativa Movimento em Falso), Daniela Pereira (diretora de serviços do CSFD) e Isabel Rocha (educadora social do CSFD) no escritório de onde já só avistamos o mar.

Isabel Rocha e Daniela Pereira fazem parte da equipa do Centro Social da Foz do Douro há mais de duas décadas © Renato Cruz Santos
Cultura em Expansão: Como é que surgiu a ideia de fazer este projeto?
Francisco Moura Relvas: Este projeto surgiu por causa de um trabalho que estava a desenvolver para uma produção de cinema, em que estavam à procura de pessoas com cerca de 80 anos. Nesta pesquisa, contactei o Centro Social da Foz de Douro e falei com a Daniela. Fiquei curioso e vim aqui ver as instalações –– vim perceber em que moldes funcionava e como é que isto estava dividido. Como já tinha trabalhado num projeto que estava vinculado ao Cultura em Expansão, surgiu a hipótese de trabalhar com estes utentes. Então falei com as pessoas da cooperativa da qual faço parte (Movimento em Falso), e montámos um projeto que abrange este território. A ideia era fazer um cruzamento entre os textos do Raul Brandão, que é uma personagem deste território específico, com as memórias dos utentes.
João Pedro Amorim: O objeto processual vai resultar destas dinâmicas que se vão criando. Nós temos uma ideia base que é explorar este território e a relação com algumas obras do Raul Brandão, particularmente Os Pescadores, talvez Húmus –– estamos a ver esse trabalho. Mas depois, como é que isso pode entrar ou não num filme, vai depender também do próprio interesse das pessoas.
Daniela Pereira: Sim, é um caminho que se está a fazer.
CE: Como estão divididas as fases de trabalho?
FMR: Neste momento, estamos a trabalhar na oficina mais importante para o projeto, que é a de recolha de depoimentos, porque há este contacto com os utentes –– as pessoas podem efetivamente contar as suas vidas e da que forma é que estão ligadas a este território. Mais tarde, iremos fazer leituras dos textos do Raul Brandão e pedir às pessoas que os interpretem. Depois queremos perceber que pessoas têm mais capacidade para participar no filme e quem é que se identifica mais ou não com os textos e com que tipo de textos. A partir daí, passamos para uma fase de ensaios com os utentes antes de partir para a filmagem. Depois da rodagem, há todo um processo de pós-produção do próprio filme. E a apresentação intermédia, como é óbvio, e depois a final, que serão ambas na Universidade Católica.
CE: Que também fica perto daqui.
FMR: Pois, sim. E até porque uma das pessoas da cooperativa que faz parte do projeto está vinculada à Católica –– portanto há toda esta ligação –– e por ser um local que tem condições muito específicas para projetar o filme e para também falar do projeto, achámos por bem incluir a Católica.

© Renato Cruz Santos
CE: Vão selecionar os textos do Raul Brandão com base nos testemunhos ou já foi feita uma pré-seleção?
FMR: Há dois ou três livros do Raul Brandão que nós achamos importantes, nomeadamente os que estão vinculados mais ou menos a este território. São textos bastante existencialistas e faz sentido trabalhá-los tendo em conta a fase de vida das pessoas com quem estamos a falar. Só depois desta recolha de depoimentos é que vamos perceber de que forma é que vamos trabalhá-los. Como ainda não tivemos contacto com todos os utentes, não conseguimos perceber. Temos alguns em mente, mas não é nada fechado, porque o que nos interessa mesmo é que estas pessoas se identifiquem com a maneira de pensar destes textos.

O Monumento a Raul Brandão fica a alguns metros do Centro © Renato Cruz Santos

© Renato Cruz Santos
CE: Voltando ao trabalho que já estão a fazer com os utentes, conseguem já falar sobre o tipo de contributos que estão a receber?
FMR: O que eu tenho percebido, nesta fase de recolhas, é que a maior parte das pessoas pertence a um estrato social mais baixo e que teve, durante a vida, condições muito peculiares. Portanto, estamos a falar de pessoas que tiveram vidas muito, muito difíceis e, de certa forma, este local [Centro Social da Foz do Douro] é quase de terapia.
Isabel Rocha: As pessoas que estão a fazer essa transmissão de memórias e de informação é relativamente a uma Foz anterior. Acabam por ser eles também o elo entre esse passado e o atual. Como eu costumo dizer, quando eles deixarem de existir, essas memórias também desaparecem, porque após o período de infância deles, a Foz mudou. E eles são um bocadinho essa memória da Foz antiga, da dificuldade. E depois o que é que acontece? Eles tiveram toda uma vida de trabalho, uma infância difícil –– em alguns casos, não são todos –– uma vida de trabalho, mas depois acabaram por chegar até nós, ao Centro de Dia, e acabam por estar bem. Têm uma relação muito boa com os pares neste grupo de 25 pessoas. É claro que é um grupo onde se nota o envelhecimento.
DP: As maleitas do envelhecimento.
IR: As perdas, quer físicas, quer cognitivas. No geral, é um grupo que se dá bem, é um grupo que interage bem e é muito participativo. Quando o Francisco chegou com essa proposta, disse-lhe “não sei o que é que vai sair daqui, mas eles são um grupo que gostam de receber, que gostam de partilhar e de falar.” Portanto, nessa parte, podia assegurar que seria bem-vindo. É um grupo que realmente se sente bem aqui. É claro que todos eles chegaram até nós por razões diferentes, a própria vida levou a isto –– uns por vontade própria, outros porque assim teve que ser –– mas é um grupo que frequenta a instituição com gosto. Apesar de, lá está, terem algumas vidas e vivências diferentes. É um grupo bem resolvido com a fase de vida que o Francisco está a retratar. Até se brinca com algumas situações, com algumas histórias que eles contam. Estão bem integrados aqui na instituição.

© Renato Cruz Santos
DP: O Centro faz este ano, formalmente, 60 anos, e o Centro trabalha na comunidade, para a comunidade e com a comunidade. Quando procuramos abrir as respostas sociais à comunidade, mais restrita ou mais alargada, isso só traz benefícios para os utentes. Obviamente, traz algum reconhecimento e alguma projeção da instituição, que também é benéfico, porque nos permite divulgar o nosso trabalho. Mas, acima de tudo, esse reconhecimento é exatamente isto: as pessoas sentirem que são reconhecidas e valorizadas. Quando chegamos àquela fase da vida em que entramos, muitas vezes, em declínio e temos perdas a vários níveis, há muitas vezes um sentimento de perda de autoestima, de autoconfiança. E é também uma forma das pessoas sentirem que ainda são capazes. E mesmo os próprios familiares sentirem que aquele elemento mais velho –– aquele pai, aquela mãe, aquele avô –– ainda estão capazes de muita coisa. E como a Isabel dizia, é muito importante para eles reviver, relembrar e perpetuar a história, porque a sociedade faz-se de alterações sociais que são exatamente isto: os comportamentos, as vivências, as práticas, os modos de estar. Quando deixarem de cá estar, vão perder-se estas memórias deles e esta memória da Foz.
IR: No passado, tivemos uma experiência idêntica no sentido de nos abrirmos, no sentido deles estarem ativos. Nós fizemos parte do projeto Quem Sou Eu?, do Teatro das Marionetas. Éramos oito, mas depois acabámos por ter um grupo reduzido, porque tínhamos que conjugar com tudo –– com a mobilidade, com a disponibilidade da família, com as memórias deles, com a capacidade de retenção. No final do espetáculo, além dos familiares dos atores que estiveram no palco, tivemos outros idosos e outros familiares de utentes que não participaram diretamente a assistir ao espetáculoIsso mostra realmente que este tipo de projetos acaba por tocar em todos, que acabam por beneficiar, de uma forma indireta, deste género de atividades.
DP: Até mesmo para a equipa. Fazer outro trabalho diferente do rotineiro é também um orgulho –– poder participar neste tipo de atividades, neste tipo de projetos e com eles fazermos coisas diferentes. A sociedade está muito programada para as respostas serem sempre muito tipificadas. Os centros de dia são todos iguais, fazem todas as mesmas coisas, têm todas as mesmas dificuldades, as mesmas limitações. E, portanto, quando nos surge um tipo de projeto diferenciador, também é um desafio para nós. Quanto mais não seja para sairmos da nossa zona de conforto –– temos que nos abrir a quem chega de novo, temos que pensar fora da caixa. Para nós, é uma experiência enriquecedora e altamente gratificante, sempre tendo em conta que são os nossos utentes que beneficiam. Mas para a equipa também é bom sair, muitas vezes, da zona de conforto. Dá muitas dores de barriga, dá muito nervosismo. E agora como é que vamos fazer isto? E agora como é que vamos adaptar os horários? Como é que os vamos levar? E os transportes? Muitas vezes, os horários têm que ser ajustados, as nossas próprias disponibilidades familiares também. Mas é um desafio que nós fazemos com gosto.
CE: Obviamente que o processo aqui tem muita importância, como vocês acabaram de dizer, mas o que é que esperam em termos de resultado final?
DP: Que seja um projeto de sucesso. Sucesso para os produtores, para os autores, para os participantes, mas acima de tudo que a sociedade perceba –– falando na perspetiva da instituição –– que as pessoas mais velhas ainda têm muita sabedoria, muito que dar e muito que contribuir. E também de se perceber que as pessoas, quando estão numa fase de envelhecimento, ainda são capazes. Não são capazes da mesma forma de quando se tem 20, 30, 40 ou 50 anos, mas ainda se é capaz de participar neste tipo de atividades ou outras. Portanto, não estão encostados ali no centro do dia à espera que chegue a hora. É um bocadinho isto: valorizar e perceber que o envelhecimento tem que ser visto de outra forma; que as pessoas não são coisas que se põem em gavetas, ou que se arrumam no centro de dia e acabou.

© Renato Cruz Santos

© Renato Cruz Santos
IR: É claro que o resultado final é muito bom, mas o importante é que durante este período –– portanto, de julho até dezembro –– estarão envolvidos numa coisa que os valoriza, que contribui de uma forma que eles podem ainda não perceber do imediato, mas o importante é que eles estão lá e fazem parte. E isso já ninguém lhes tira, digamos assim. A única coisa que nós podemos dar é a nossa abertura aos utentes, direcionar um ou outro para o projeto.
DP: E são oportunidades únicas. Nem todos os centros de dia têm projetos assim. Portanto, os utentes são uns privilegiados em poderem ter estas oportunidades para viverem outras experiências.
Passeio Alegre foi um dos projetos selecionados na Open Call de 2026 na modalidade Criação participada. Na génese destes projetos, um artista conta com os contributos de uma comunidade. A criação artística final reflete a sua visão após este encontro.
As datas de apresentação dos vários projetos estarão disponíveis em breve.