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Um Trampolim para saltar sem medo
Entrevista Trampolim

É no percurso de duas décadas da Associação ENCONTRAR+SE que encontramos a raiz do nome do projeto "Trampolim". Uma IPSS que desenvolve trabalho pela promoção do entendimento da saúde mental, a sua acção desenvolve-se diretamente com quem procura apoio na convivência com a sua doença. Um destes associados afirmou que a ENCONTRAR+SE havia sido o seu "trampolim para a vida". A expressão foi permanecendo, até encontrar sintonia com o conjunto de artistas que a usou para baptizar o projeto hoje apoiado pelo Cultura em Expansão. A estrutura artística deste projeto procurou ainda a parceria com o Serviço Local de Saúde Mental do Porto Ocidental, do Hospital de Magalhães Lemos. Conversámos com Marco Taveira, professor e mediador do projeto, assim como com alguns associados da ENCONTRAR+SE, sobre o que esperar de Trampolim.

Cultura em Expansão: O que está por trás do nome "Trampolim"?


Marco Taveira: A ENCONTRAR+SE tem muitas pessoas com potencial na via artística, e decidiram criar um projeto para que essas pessoas fossem impulsionadas e tivessem algum apoio para desenvolver melhor as suas ideias e as suas técnicas. E, no fundo, a palavra "Trampolim" é literal nesse sentido, porque vai servir de rampa de lançamento para elas, e vai culminar numa exposição. Para além disso, o nome remete para um universo mais livre, divertido e espontâneo, que vai ao encontro da forma como trabalhamos aqui. Privilegiamos a experimentação e o desenvolvimento de linguagens próprias, sem impor modelos académicos rígidos. Um trampolim também representa isso: ganhar impulso e saltar com liberdade.


CE: Sem regras, mas com um objetivo final, o da exposição coletiva. Como se vai construindo essa exposição?


MT: O projeto foi estruturado por mim, pelo Heitor Corrêa e pela Sofia Mexia — e conta com a participação de Isadora, Ela Rincón e Karla Ruas enquanto artistas convidadas, que contribuem em diferentes momentos para a experimentação e partilha de práticas. Nesta fase estou eu a dar acompanhamento, e a seguir virá a Karla Ruas, para um trabalho mais com pigmentos naturais, mais pintura. E no final teremos a ação do curador da exposição, o João Kendall, que vai pensar e construir o dispositivo expositivo conjuntamente com os artistas.

Entrevista Trampolim

© Inês Aleixo

CE: Fala-nos um pouco sobre o processo de recrutamento dos artistas. Como é que chegaram a esta equipa final?


MT: Para ser sincero, já havia aqui uma pré-seleção da parte da ENCONTRAR+SE — eles já tinham um olhar sobre pessoas que podiam beneficiar deste impulso do Trampolim. Mas fizemos também uma apresentação do projeto e, mesmo pessoas que não tinham ligação nenhuma ao desenho ou a estas práticas artísticas ficaram interessadas. Temos o exemplo da Ana Paula, que já trabalhou connosco a escultura, e tem trabalhado aqui muito a reprodução também de alguns artistas contemporâneos. Tudo num processo de descoberta e experimentação porque ela nunca trabalhou nada disto, para ela é toda uma novidade. É uma curiosidade que depois também começa a transbordar e começa a criar uma certa linha condutora que acabou também por ser uma boa surpresa.

Entrevista Trampolim

Ana Paula e Marco Taveira © Inês Aleixo

Entrevista Trampolim

Paulo Soares, Marco Taveira, Nádia e Catarina Beirão © Inês Aleixo

Entrevista Trampolim

© Inês Aleixo

MT: Temos outras pessoas, como a Nádia e a Catarina, que têm já um trabalho muito sólido e conseguem desenvolver trabalho de forma autónoma. E temos o Paulo, que é jornalista de base, e para quem o contacto com o desenho é uma novidade,


Paulo Soares: Eu não consigo ter empregos normais, já tive experiências muito más, e para mim não dá. Também não sou um grande artista, não sou. Mas aqui há um duplo "trampolim". Porque eu não imaginava que conseguisse fazer o que tenho feito. E a exposição é o outro trampolim, porque vamos ser vistos. Eu já vi aqui pessoas entrarem e ficarem completamente tolhidas no primeiro dia, a dizer que não podiam fazer nada e agora vê-se as obras que temos por aqui.

Entrevista Trampolim

© Inês Aleixo

CE: Estiveram presentes na apresentação do projeto? Qual foi a primeira impressão?


Nádia: Da minha parte, deu-me logo vontade de participar na atividade e ver o que é que podia sair daqui. Achei muito interessante o facto de podermos fazer uma exposição aos nossos trabalhos. À medida que fui participando nas aulas, fomos aprendendo diversas técnicas diferentes, explorando um bocadinho mais coisas novas. Claro que o processo em si às vezes nos apresenta uma determinada técnica, e se calhar eu posso não gostar tanto dessa técnica, e não consigo sair-me tão bem com ela. Mas eu tenho a filosofia de que eu quero fazer um bocadinho de tudo na minha vida. E pronto, posso não focar a 100% numa determinada coisa e ser um génio naquilo, mas posso fazer um bocadinho de tudo.


CE: Catarina, contigo foi também fácil sair da tua zona de conforto? Já sabias que quando vinhas era para explorar expressões e técnicas diferentes?


Catarina Beirão: Para mim foi super apelativa, essa dimensão. Cada sessão ser um pouco diferente das outras dá para experimentar, para explorar e até deixar correr. Até porque também nunca tive nenhum curso, nunca fiz nada relacionado com artes. Mas quando vim para a ENCONTRAR+SE comecei a explorar muito mais a arte, comecei a criar uma grande ligação até como forma de expressar o que sentia, seja positivo, seja negativo.

PS: Eu acho que houve uma coisa fundamental na apresentação. Foi-nos dito, Quem quiser aparecer, que apareça. Eu acho que isso teve um peso muito importante, dar-nos dar essa liberdade.


MT: Mas sentes que essa liberdade continua a ser dada?


PS: Sinto, sim, completamente. Completamente, porque se eu me sentisse obrigado aos padrões ao academismo, possivelmente já cá não estaria.

Entrevista Trampolim

© Inês Aleixo

"A doença mental é uma doença como qualquer outra e tem que ser vista como tal."


O produto final da exposição coletiva pretende, acima de tudo, valorizar as criações artísticas dos participantes. O projeto envolve artistas com experiência de doença mental, mas essa experiência não define os seus percursos nem constitui o foco da exposição, que procura valorizar as criações artísticas por si mesmas. Nas palavras de Joana Martins, terapeuta ocupacional da Encontrar+se, "este projeto surge também um bocadinho para dar voz ao talento que as pessoas aqui vão mostrando no dia-a-dia". No fundo, o projeto surgiu porque, diz, "percebemos que as pessoas precisavam de um lugar seguro, de confiança, com pessoas especializadas que trouxessem diferentes técnicas e abordagens. E que depois culminasse num processo de capacitação nesta área artística".


O facto da saúde mental ser incontornável neste projeto, mas não ser de todo protagonista é algo que está no âmago desta IPSS, que promove ações de sensibilização para um discurso público mais natural sobre o tema. Marco não poderia concordar mais com o posicionamento: "Acho pertinente e importante esta atitude sem tabu, e seria um bom modelo a adoptar pela sociedade. Até porque uma pessoa sentir-se à vontade para comentar que vai à sua consulta com um psicólogo é algo que tem pouco tempo de normalização na nossa sociedade". Em jeito de resumo, Joana explica a motivação fundacional da Associação, e do Trampolim: "pretendemos ajudar as pessoas a estarem bem, autónomas, independentes. E felizes, acima de tudo".

Entrevista Trampolim

Joana Martins e Marco Taveira © Inês Aleixo

Trampolim foi um dos projetos selecionados na Open Call de 2026 do Cultura em Expansão na modalidade de cocriação comunitária. Esta modalidade compreende projetos que não são feitos para as pessoas, mas com elas. A criação artística resulta da visão conjunta entre uma comunidade e o artista.  


Informações sobre as datas de apresentação deste projeto estarão disponíveis a partir do dia 4 de setembro.

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