Cultura em Expansão

PESQUISAR

Desenhar a Trilha sonora da Lomba
Entrevista Trilha

É irrefutável a importância que a Associação de Moradores da Lomba desempenha junto dos habitantes daquele bairro, e igualmente difícil de contestar é a familiaridade sentida por qualquer pessoa que entre e se deixe ficar no espaço. E, afinal, se a Associação é o epicentro da Lomba, é também onde nos juntaremos várias vezes até ao final do ano, reunidos em torno de música e celebração, em comunhão com gerações donas de diferentes vivências nesta zona da cidade. 


O nosso regresso à Lomba, numa tarde de setembro, junta-nos a Marlene Arantes, Presidente da AM Lomba, já em conversa com os artistas Júlia Reis S. e David Negrão. Juntam-se para nos receberem, mas também para nos contarem mais sobre Trilha –– Cartografia Sonora Coletiva da Lomba, cujo ponto de partida é uma instalação interativa que converte desenhos feitos à mão em composições musicais em tempo real. Esta inventividade dos artistas, responsáveis pela conceção do projeto, também teve um ponto de partida: uma pergunta inicial de Júlia que parecia desvendar, achava ela, já um "não". Mas David surpreendeu-a: é possível, sim, transformar desenhos em música.

Entrevista Trilha

© Renato Cruz Santos

Cultura em Expansão: Contem-nos como surgiu este projeto.  


Júlia Reis S.: Liguei ao David Negrão, que é da área do videomapping e da programação, e perguntei se era possível esta ideia de desenharmos e transformar algo em música, ou se era só uma ideia estapafúrdia da minha cabeça. Ele disse que era possível. E a partir daí, fui investigar, porque gostava de fazer alguma coisa perto do meu bairro, já que vivo em frente à Igreja de Bonfim. Já que queria trabalhar com crianças, tentei falar com os ATLs. O problema é que faltavam duas semanas para a fechar a Open Call do Cultura em Expansão e não conseguia falar com ninguém. Depois lembrei-me da Associação de Muradores da Lomba, e a malta da Lovers & Lollypops, que costuma fazer o Banho da Cobra, arranjou-me o contacto da Marlene. Prontamente, imediatamente, respondeu-me e começámos logo a trabalhar. Já tinha escrito mais ou menos o projeto, faltava enquadrar no contexto da Associação de Moradores e assim nasceu o Trilha.

Entrevista Trilha

Júlia Reis S. © Renato Cruz Santos

Entrevista Trilha

Marlene Arantes © Renato Cruz Santos

CE: Marlene, como é que receberam este convite, do lado da associação?  


Marlene Arantes: Sempre que nos convidam ou me ligam para o que for, em prol da associação estar a ser dinamizada e ter atividades, regra geral estamos sempre abertos. Hoje em dia, nós, que fazemos parte da direção da associação, temos trabalhos e não conseguimos estar presentes a fazer serviço social ou cultural. Precisamos também destas parcerias, destas pessoas que aparecem com projetos e com ideias. É também uma forma das associações estarem vivas –– por isso, mal a Júlia falou, também disse logo que sim. Estou sempre aberta a qualquer projeto que permita divulgar ainda mais o nome da associação e da zona da Lomba. 


CE: E como é que o projeto foi pensado em colaboração com a Lomba?  


JRS: Trilha significa "caminho", mas também representa "trilha sonora". Foi pensada à volta de uma instalação interativa que o David desenvolveu. 

Entrevista Trilha

David Negrão © Renato Cruz Santos

David Negrão: Temos várias fases nesta instalação. Temos a parte do mapa, dos percursos que vamos fazer, em que vamos criar uma espécie de partitura sonora. Depois vamos ter um dispositivo, que ainda está a ser construído, em que vai ser possível desenhar em giz e, a partir do desenho, converter isso em música. E esse é o desafio tecnológico, por isso ainda estamos a ver o que faz mais sentido, e especialmente perceber com o pessoal que instrumentos que possam ser característicos da Lomba vamos ter. Estamos no início do processo, mas já temos um dispositivo montado –– imagina um software de som em que começas da esquerda para a direita, tens as notas e vais escrevendo-as. Desenhas à mão, em giz e podes apagar. Temos que ter uma câmara por cima, que supostamente será um daqueles candeeiros antigos para não se perceber que está lá a tecnologia. E depois existirá essa parte da magia: como é que o desenho se converte em música. 


JRS: Esse é o objetivo. Primeiro, vamos pôr as crianças a percorrer um caminho pelo bairro, alguma coisa que não seja muito longa. Poderão desenhar numa mesa redonda que terá quatro estações –– no fundo, cada grupo de instrumentos musicais. Vamos pôr a desenhar cinco elementos desse percurso que eles tenham reconhecido, e essa parte vai ser transformada em música. Daqui para ali, vão soar umas notas ou um ritmo, e depois, numa segunda fase, eles vão desenhar, desse mesmo percurso, elementos que gostariam que existissem –– até a parte do caminho imaginado que gostariam que existisse no bairro... como uma piscina, animais, o que eles quiserem. E depois, na apresentação intermédia, a ideia seria eles ensinarem aos adultos como é que funciona este mecanismo. A partir daí, serão os mais velhos a desenhar coisas que já não existem no bairro mas que existiam. Há muitas obras a acontecer agora, e há coisas que já não existem, como fábricas, por exemplo. Seria interessante fazer um arquivo de memórias.  

Entrevista Trilha

© Renato Cruz Santos

"É mesmo transformar em música aquela que é a visão das pessoas que constroem este bairro –– de como era, de como é, ou como gostariam que fosse." 

Júlia Reis S.

Entrevista Trilha

© Renato Cruz Santos

CE: Já têm um grupo de trabalho em mente? De que forma entra a Associação de Moradores no projeto?  


MA: A nível do grupo coeso, temos 24 meninos no futsal. Se conseguirmos que venham todos –– porque às vezes pode haver conflitos de horários com outras atividades –– mas esperamos sempre uma média de 18 crianças. Depois existe há sempre o passa a palavra. Os miúdos dizem uns aos outros: "anda, porque é fixe" ou "não vou, porque aquilo é uma seca", ou os pais também dizem "o meu filho afinal quer vir porque é fixe". Depende sempre de como é que eles interagem. 


JSR: Depois conseguimos que os pais e os avós venham. A apresentação intermédia será a 7 de novembro, e assim já é mais fácil aparecer, em princípio, num sábado à tarde. Nós temos visto as iniciativas que as pessoas fazem aqui no bairro e têm tido uma boa afluência, por isso esperamos também conseguir. 


CE: O que é que as pessoas podem esperar dessa apresentação, a 7 de novembro?  


JSR: Basicamente, queremos fazer uma sessão informal –– mostrar algumas imagens do que as crianças já fizeram e ter a instalação pronta a trabalhar. É mesmo para ser uma brincadeira. 


DN: Esta instalação está viva e toda a gente pode participar –– os pais, os amigos –– então será um convívio, mas também um live act. 


JSR: Sim, exato. Vamos estar a ouvir o que é que está a acontecer. A ideia é estarmos a desenhar e a fazer música ao mesmo tempo. 

Entrevista Trilha

Trilha –– Cartografia Sonora Coletiva da Lomba foi um dos projetos selecionados na Open Call de 2026 na modalidade Criação participada. Na génese destes projetos, um artista conta com os contributos de uma comunidade. A criação artística final reflete a sua visão após este encontro.


A próxima apresentação do projeto terá lugar, precisamente, na Associação de Moradores da Lomba, a 7 de novembro, pelas 17h30. 

culturaemexpansao.pt desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile